segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SUANDO A CAMISA.

    Entrou e não encontrou onde pudesse se sentar, mas para ficar de pé podia escolher o lugar que quisesse. Então optou pela parte de trás onde ficaria à vontade nas redes sociais do celular. Entretido não percebeu o quanto de gente entrara naquele trem, mas o suficiente para uma garota, que não tendo onde se acomodar, se postar de frente à sua perna apertando, de leve, a vulva na sua coxa. Talvez não tivesse o propósito de fazê-lo, mesmo assim excitou-o a ponto de deixá-lo do jeito que ficou. Fingindo acessar o Whatzap como vinha fazendo, voltou para ela seus radares na intenção de saber se era ou não voluntarioso o contato de suas coxas na dele, da sua barriga no seu quadril e depois de um determinado momento, a dele na dela. Ninguém, além dos movimentos da locomotiva, os tirava daquela posição e só depois de concordar quando ela comentou sobre o calor que fazia ali dentro que o pobre rapaz relaxou e pela primeira vez na vida obteve um orgasmo em público e daquela dimensão, talvez com a permissão de quem também nunca tivesse gozado de tal experiência como ela naquele momento. 

- Nessas horas eu me lembro de um velho bordão que dizia; se a vida te dá um limão, que tal fazer dele um refresco?

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

SÓ O AMOR PARA EXPLICAR.

 
    Por isso ou por aquilo já vi gente trair no casamento, porém nunca pensei que alguém fosse capaz de ajuntar as tralhas, botar a família e o cachorro debaixo do braço e correr para junto de quem acha que ama só por pensar que tem por ela um amor tão puro que chegas às raias da inocência. Sim, porque só agora me dou conta de que esse tipo de amor é possível, mesmo já tendo largado tudo para atender o chamado de quem eu tanto gostava sendo que para a pessoa eu não passasse de um mero pagador de contas, principalmente dos almoços e dos chopes que bebíamos. Quando eu procurava por ela, nunca estava disponível, mas se fosse ela quem precisasse de mim lá estava eu abanando o meu rabo. 
O amor que eu sentia por essa pessoa, e acho que ainda sinto, era e é verdadeiro, sem cobrança, desinteressado, uma vez que dela eu só carecia da companhia para assuntos banais e como somos héteros e bem resolvidos com as nossas mulheres, sexo não tinha chance entre a gente.
 Hoje, algum tempo mais tarde, me vejo abraçando aqueles que largaram o conforto das casas, o aconchego dos amigos do bairro, a fidelidade da igreja dos domingos e vem, de mala e cuia, rever o amigo que calado sofria por sabê-los distantes. 
Amar é isso. É não se importar com idade, com o estado físico aparente e com o sexo que tenha a pessoa que o seu coração escolheu para amar, e quando esse amor é recíproco, aí a gente vira criança. Bate palminha, dá pulinho, corre para os braços da pessoa amada e beija-lhe a sua face ou, se você tiver a sorte que eu tenho, se deleita com a gargalhada que ensurdece a inveja e o preconceito, e aos íntimos, garante a sensação exata da felicidade.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

DESCULPE O DESABAFO, MAS POR SER CONSIDERADO UM MACHÃO NÃO TINHA COM QUEM CHORAR...

    
   Convivi com João Ubaldo Ribeiro de quem penso ter sido um bom amigo e com quem tomei algumas dezenas de chopes no Leblon onde ele morava e assim que eu soube de sua morte chorei mais do que talvez chorasse por um parente. Um dia esse mesmo João me falou que a minha escrita era confusa aparentemente, mas, quem sabe, talvez fosse uma nova maneira de se falar dos dias que estavam surgindo. A gente estava sentado num bar na esquina das ruas Dias Ferreira, onde ele morava, com a General Urquiza, no Leblon.
Também chorei com a morte do Paulo Silvino, pessoa com quem eu não convivi, mas conhecia uma vez que seu pai, Silvino Neto, vivia na diretoria do Banco, onde eu trabalhava, em busca de recursos para a sua obra e com quem conversava nas vezes em que ele por lá aparecia.
Luiz melodia,  por sua vez,  era um garoto que tocava escaleta, um tipo de flauta com teclas de piano, em frente a casa onde eu morava. Ele dizia que no futuro seria cantor e a gente, moleque que era, ria da cara dele, talvez por inveja dos dotes que tinha. Quando sozinhos a gente falava desse futuro que só veio pra ele, e da gente que dele fazia troça, recebia os aplausos e os gritos de bravo!, de bis, e de quero mais.  Sua morte também foi a minha.
Luiz Gonzada eu conheci quando o Governador de Minas,  que também era diretor do Banco onde eu trabalhava, me apresentou a ele graças a humildade do velho Magalhães Pinto. Uma vez o Gonzagão, que almoçaria com a gente no segundo andar da Travessa Ouvidor com a Av. Rio Branco, me chamou para perto de onde estava sentado e cantou uma de suas músicas, que já não me lembro qual foi, batucando na mesa de dez metros que ficava num espaço onde os diretores almoçavam e ele, como se eu entendesse de música, me perguntou o que eu tinha achado.  Na época eu era secretário de Theóphilo de Azeredo Santos, que por sua vez era casado com uma das filhas do Velho Magalhães e por isso eu também me sentava naquela mesa.  Foi lá que eu aprendi como se comportar em uma mesa de refeição e olha que eu era um menino, 20 anos de idade, e só ingressara no banco por causa de um despretensioso concurso. O que eu queria de fato era trabalhar no jornal onde aos 15 anos tomava gosto pela coisa e onde eu fiquei até os 18. Depois fui para o exército, mas voltei ao dar baixa para o convívio das letras. Pouca gente conhece a minha história e só a estou contando  porque estou triste com as perdas decorrentes, e como se não bastasse, chega ao meu conhecimento a morte de Rogéria com quem nunca falei, mesmo tendo amigos que não se continham na sua presença e agora, coitados, se escondem na saudade para comigo chorar essa mazela.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

SEU NOME É SAUDADE...

   Hoje eu acordei com uma saudade tão grande daquela moça que até chorei de soluçar. Foi difícil acreditar que tivesse tido coragem de arrumar suas coisas e sem saber que deixava um rastro de tristeza deu às costas e sumiu na poeira do tempo. Naquele dia não só eu chorei a sua ausência, mas todos que tão bem ela soube cativar. Não foi de agora que me dei conta do quão misericordioso foi nosso Deus nos presenteando com a sua presença, pois foi com ela que aprendemos o verdadeiro sentido da alegria. Foi com ela que soubemos o que é resguardar de companhia duvidosa aqueles a quem amamos, como também ela nos ensinou a valorizar uma longa viagem, mesmo que cansativa ou um simples passeio se estivesse conosco. Ah, minha jovem! Ninguém jamais fez melhor festa para me receber, para receber sua irmã e principalmente para ter sua mãe ao seu lado, como você fazia quando chegávamos à casa. Ninguém colocou tanta certeza nas minhas dúvidas, tanta alegria nas minhas tristezas e tanta saudade no meu coração como você consegue. Eu sei que voltar deve ser impossível, mas se um dia você achar que o nosso amor é suficientemente verdadeiro, por favor, não se acanhe. Volte pra casa que estaremos no portão onde você nos deixou, de braços abertos a sua espera.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

QUEM SERIA O DONO DELA?

   Eu não pedi pra nascer, mas se tivesse pedido, quem me garante que pediria para nascer humano? Talvez preferisse ser outro animal ou quem sabe eu quisesse ser a própria natureza mesmo errando ao colocar o nariz da gente em cima da boca, os testículos no meio das pernas e os seios da mulher na frente do peito; talvez um na frente e outro atrás fosse de bom alvitre. Mas nada como a natureza tem seus encantos. Nela existem rios com margens para a privacidade, leitos para esparramar suas preguiças, nascentes como berço e uma foz imensa para se entregar de corpo inteiro. E tem um mar para desaguar o que antes alimentou a fauna e a flora enquanto caminhava como também carrega consigo o poder da mudança. Em milhões ou bilhões de anos mudou as montanhas e os oceanos de lugar. Criou continentes, vales, precipícios, chuvas e ventos, e até se deu ao luxo de apagar do mapa o que achou ter errado. Com uma palavra é capaz de mudar o humor de uma pessoa para o bem ou para o mal, como também é capaz de salgar a lágrima de sua alegria e a da sua tristeza. Eu, portanto, queria muito ser essa tal natureza, mas pelo que vejo a natureza já tem dono ou o dono talvez seja sua própria criação.  Dessa maneira vou seguindo a minha trajetória enquanto invejo a vida que levam os outros animais.

terça-feira, 18 de julho de 2017

POR QUE SE FOI?

   Chorou como choram os bebês no berço sentindo a falta da mãe. Chorou até se desidratar, como os monges na semana santa choram o sofrimento de Cristo. Chorou para não se esquecer que chorando lava-se a alma e tudo que não for puro existente nela. E foi assim o seu fim de semana como também os demais dias que se passaram. Certamente os inimigos se perguntariam se a tal choradeira seria consequência de um estado terminal dando motivos a tão sonhada festa em homenagem a sua morte, ou teriam de aturar por mais uns tempos esses sorrisos de felicidade e até quando já que a eles incomodava tanto? Mas ele, sinceramente, não pregaria uma peça dessa nos que o querem jazido em cova rasa, até porque, atingiria, de certo modo, os que tanto gosta e pretende mantê-los consigo por vários anos. De qualquer formam foram tristes os dias que passaram sem a presença dela. Com ela ele era uma pessoa, mas sem ela nem sabia no que tinha se tornado. Talvez nem humano ele se considerasse mais. E com este pensamento deixaria de se definhar como vinha acontecendo, já que ela, com certeza, era tudo que um ser poderia esperar de bom da natureza pois a sua imagem era linda como o alvorecer, adorável como uma tarde de domingo e irradiante como as festas da primavera. Que pena que vai durar mais tempo sem ela do que ela durou com ele e que pena que ela não tenha ficado para ver a mudança que causou em cada um dos que, de uma certa maneira, ela provou que amava.
A estas horas certamente já deve estar distante, talvez num lugar onde entendam a linguagem dos anjos com a qual tentava se comunicar com os amigos que fez ou ainda esteja por aí a sua espreita. A ele deve ter sobrado forças para dizer que haverá uma enorme festa para os que em breve descobrirão que não é preciso saber falar ou ouvir tão bem para fazê-los felizes como ela, de certa maneira, fez com os que deixou para trás.
-Vá na paz, mas não exija dos que triste ficaram que a esqueçam, porque somos humanos e o esquecimento não faz parte dos nossos melhores sentimentos.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

SOU FILHA DO CARA...

         

   Meu nome é Rebecca. Sou filha de um cara que diz que o verdadeiro amigo não é aquele que nos fala a verdade , mas aquele que fala o que a gente precisa ouvir.
- Certa vez meu pai chegou a nossa casa com alguém que marcaria os nossos dias, o nosso tempo, a nossa vida. No princípio achamos que trazer Babi para o nosso convívio fosse algo de errado, mas errado seria o julgamento que fizemos de papai, já que logo entendemos que o verdadeiro amigo, contrariando o que diz o meu velho, não é aquele que nos fala o que acha que precisamos ouvir, mas aquele que cala e nos escuta. É aquele que nos olha e nos enxerga. Aquele que não puxa a cadeira para se sentar conosco, mas que se deita aos nossos pés para mostrar que não estamos sós. Dois anos e sete meses essa criatura ficou com a gente na casa dela. Sim, porque a casa, que antes nos pertencia, mudou de dono com sua chegada. Nada mais fizemos sem antes pensarmos nela. As viagens, os hotéis e os restaurantes tinham de atender às suas necessidades ou mudávamos a rota, os pernoites e os lugares onde comeríamos. Tudo foi ajeitado de maneira que nem nós notamos que até as nossas vidas não mais nos pertencia. Babi tornou-se dona de tudo e de todos. Trocou de quarto, trocou de comida e tudo o mais que a fez mais bonita às exigências dos outros. Há dois dias Babi resolveu nos pregar uma peça e o fez sem nos questionar se estávamos de acordo ou não. Hoje pela manhã Babi arrumou o que tinha trazido há dois anos e sete meses, meteu dentro das nossas lembranças e partiu. Foi embora para lugar desconhecido e não sabido, mas deixou, além da saudade e o agradecimento preso em nossa garganta, o espaço vazio onde, com jeito e inteligência, conquistava mais a cada dia.
Como tudo em nossa casa foi feito às suas vontades, que vá na paz, minha doce Babi. Vá, mas desculpe se a gente não foi nem um terço do que você representou para nós que chorosos, sentimos a falta que você já nos faz".

sábado, 1 de julho de 2017

POR QUE CORRUPTO?

    A corrupção não é privilégio do ser humano ou não seriamos fruto de um homem e uma mulher que, por corrupção da natureza, se apaixonam a ponto de perder o siso já que o homem vê na mulher, que o enfeitiça, o que de mais delicioso, bonito e gostoso alguém espera que a natureza lhe dê ao passo que ele, aos olhos de sua amada, não é menos que a dádiva que Deus guardou para ela até que aos poucos o tempo prove ter enganado a ambos, e ao tomarem conhecimento da esparrela que caíram o homem volta à dureza do machismo e a mulher à subserviência do seu legado. 
Ninguém, pelo menos que os estudos me garantam, é feliz no casamento, a não ser que estejam juntos a pouco tempo ou um deles se curve diante daquele que bate no peito dizendo que é a exceção da regra. 
Por isso alguns homens são trocados por quem não possui nem um terço das suas qualidades. O mesmo acontece com a mulher. Tem homem que escolhe a melhor do mundo com quem se casa e depois de alguns meses corre às ruas em busca de quem o satisfaça na cama, mesmo que em casa ele tenha o que de melhor e mais belo exista no planeta. Na hora de acusar aqueles que achamos que estão errados nos esquecemos da arapuca que a natureza nos tem metido ou as desculpas para esse tipo de erro não seriam necessárias. Eu adoraria ser a exceção da regra, mas para isso seria preciso encontrar uma exceção tão grande que coubessem os meus parentes e os melhores dos meus amigos.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

E AGORA?

    Tem vez que gentileza não gera gentileza, até pelo contrário. Assim foi com meu filho que ao sair de uma festa num bairro vizinho, viu que alguém dava tapas na lataria do carro. Talvez fosse um conhecido querendo carona ou quisesse zoar, como fazem alguns jovens num final de festa. Meu filho ficou uma fera e com toda a razão, até porque, se o pai soubesse que o carro correra risco de ser arranhado, com certeza não o emprestaria novamente. O veículo não tinha andado suficiente para que o automático trancasse as portas, por isso aquela pessoa o adentrou mandando que seguisse. Era a voz de quem fugia de uma possível violência. Voz de medo, de pavor. 
– Meu Jesus do céu! Será que estou sendo assaltado por uma criança? – Pensou o condutor. Nenhuma segurança, por mais reforçada que seja, detém a violência nessa cidade. Cem metros mais a frente a voz no banco de trás voltou a ser ouvida, desta vez com menos petulância. Certamente pela calma que o meu filho, falsamente, aparentava, mas de qualquer forma era menos agressiva que os agudos dados ao pé do seu ouvido. 
– Você me desculpe, mas passei a noite com um cliente que ao invés de me pagar pelo serviço me tomou o dinheiro que eu tinha e ainda me forçou a cheirar cocaína. Foi muita sorte achar a chave e poder fugir. Por isso eu entrei no primeiro carro que apareceu, nesse caso, o seu. Eu estava fora de mim, só queria salvar a minha vida, entende? Agora que estamos longe do perigo você pode me deixar em qualquer esquina ou se não for pedir de mais, me leva pra sua casa. Assim que eu melhorar eu juro que vou embora – completou chorando. A garota era linda e com aqueles olhos cheios d’água, então, ficava muito mais bonita. Parecia uma santa, não fosse a saia extremamente curta e os pequenos seios que a blusa mal cobria. 
– Tá legal. Depois do que você me contou eu não tenho coragem de deixá-la por aí a mercê da sua malfadada sorte. Vou te levar comigo, mas nada de barulho para não acordar meu pai. O coroa é careta e jamais entenderia u’a menor em nossa casa. 
– Não se incomode comigo que eu sei me cuidar – disse ela – amanhã de manhã eu volto pra minha casa – concluiu.
– Amanhã de manhã? Tu ta de sacanagem, garota! Tu não podes passar o resto da noite na minha casa ou meu pai corta minha mesada. Você até pode ir para minha casa tomar um banho, comer alguma coisa e quando sentir que está melhor me fala que eu te levo de volta. Depois eu converso com meu velho. 
– Tá legal. Vou aceitar o banho, comer alguma coisa e depois eu penso no que faço da minha vida – disse escondendo o riso. 
Eu, como faço todos os domingos, me levantei às 7h, tomei uma ducha fria e um gole quente de café, e, diferente do meu filho, ia à missa dominical. Era só pegar a chave que infelizmente não estava no lugar onde guardamos, por isso fui questionar meu filho. Pasmo o encontrei abraçado a uma mocinha que mais parecia minha neta, filha dele se filha ele tivesse. 
– Jesus de Nazaré! É a mesma menina a quem eu dei carona recentemente e por respeito e diferença de idade a deixei dormir em minha casa e dela recusei todos os carinhos que a mim oferecia. Será que eu sou um imbecil de carteirinha por não saber viver a vida ou o meu filho é que não vale nada por estar dormindo com uma criança? Na dúvida resolvi esquecer o assunto, como se um caso dessa magnitude fosse simples de se tirar da cabeça, principalmente quando uma garota, um pai e um filho, em diferentes noites da mesma semana, participaram de alguma coisa sem que cada um desconfiasse dos outros.

terça-feira, 20 de junho de 2017

COISA DE CRIANÇA...

   

   Na umidade entre as pernas da mocinha achava que tinha a mão, a boca, o órgão  despretensioso do menino, e tudo graças a generosidade do lençol que permitia aos olhos gulosos do rapazinho, vasculhar os dois mais lindos montes daquela paisagem.  De sua boca, fortuitos lábios de um sonhador em crescimento roubam beijos de gente grande para depois sumir no anonimato de suas remotas lembranças. Foi  diferente, estranho, surpreendente. Foi como um sonho, uma droga, para deixá-la naquele estado.  Um pesadelo talvez, mas quem nos garante que a causa tivesse mais importância do que o efeito nela provocado? Não continuassem os espasmos a contorcer-lhe o corpo tal qual uma serpente à beira da morte se contorce e eu garantiria que os múltiplos espasmos – ou seriam orgasmos?, estariam vibrantes como os sinos em dia de missa.  Sonho ou pesadelo, verdade ou fantasia? Não importa se promessas não são negadas ou quebradas. Se desejos proibidos, pecado capital, incesto de mãe desejosa de  filho amado, é verdade.  Enfim, nada de concreto teria acontecido de maneira que a lembrança não pudesse esquecer, desde que, assim o pretendesse. Eis que,  ao som do alarme de um celular a mocinha salta do leito deixando ao vento um par de pernas nuas e os seios pontiagudos mirando a cara espantada de quem, envergonhado, a desejava, enquanto ela dormia.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

LEMBRA DE MIM?

   
   Sempre que eu ia à rua, Vagabundo me acompanhava. Esse cara não ia com a cara de nenhum dos moleques da redondeza, mas na minha se amarrava de montão, por isso o levei pra morar comigo, mas, daquela data em diante eu o chamaria de Válter, porque "Vagabundo" não é nome que se dá a cachorro nenhum, principalmente ao cachorro que a gente gosta, e eu gostava daquele bicho. Tudo o que presta e também o que não prestava, confesso, ensinei para ele. Por isso Válter era o único cachorro que falava na minha rua - pelo menos era o que me diziam. Quando a gente saía nada que eu fizesse era feito sem sua participação. Se por ventura eu comesse alguma coisa, a melhor parte era dele. Talvez por isso o seu pelo vivia brilhando ao passo que o meu.... Nem te conto. Válter adorava cachorro quente com molho de tomate, batata palha e maionese. Aliás, eu nunca entendi esse cara que amava cachorro quente com molhos afins, mas na hora de comer só a salsicha o interessava. 
  Na segunda-feira de carnaval e não na quarta-feira de cinzas daquele ano Válter bateu as botas, e como todo bom amigo, morreu sem me dizer que sofria. Como um cão tão forte e bonito daquele jeito podia morrer numa hora dessas, meu Deus? Valter, seu filho da puta, você acabou com o único carnaval que minha mãe me deixou brincar, sabia? E não contente, ainda levou com você a alegria de quem me falava de suas aventuras, dos seus sonhos e até dos amores não correspondido que teve você me falou. Desculpa, mas até a data de hoje eu não me conformei com a sua partida. Se você tivesse me dado um toque, uma pista, feito com que eu entendesse que alguma coisa não ia bem ou que a morte o estava embalando para viagem e eu teria tomado as minhas providências. Não sei exatamente o quê, mas faria qualquer coisa, como rezar, jurar que deixaria de roubar dos meninos no jogo de botão, coisa que eu fazia com destreza ou nunca mais tomar banho pelado no Rio que separa Vigário Geral de Caxias, onde praticamente aprendi a nadar enquanto na margem onde eu deixava a minha roupa você ficava torcendo para eu não me afogar, lembra? Pois é, e você me faz aquela sacanagem. Desde aquele tempo que eu não tenho olhos para nenhum bicho da tua raça. Não quero saber de cachorro para trocar o nome, ensinar a falar e principalmente, com quem me abraçar e chora nas horas triste da vida enquanto você, entendendo como entendia do meu sofrimento, deixava uma lágrima correr dos seus olhos para depois me enganar que não era sua, mas minha. Não, nada de cachorro para comer o melhor do meu cachorro quente. Nada de bicho que não me impeça de chorar para poder chorar comigo. Não quero mais um companheiro que me deixe com cara de retardado falando com quem não entende, segundo os anormais que pensam que bicho não fala.
Agora chega senão eu choro. Esse texto era só um motivo pra dizer que cresci, amadureci e já sinto as rugas me incomodarem, mesmo assim não consigo esquecer do amigo.

sábado, 10 de junho de 2017

DORMINDO COM O INIMIGO...

Sentou-se no leito enquanto ao lado um parceiro, gordo como uma porca, babava
estirado na cama. Mais uma vez a filha de uma família abastada se questionava quanto ao que teria na cabeça para se entregar a qualquer um depois de umas cervejas e, as vezes, um "cigarrinho", que sempre aparece nos barezinhos de final de semana. Se eu acordasse depois desse cara - pensava - com certeza teria encontrado uma nota de 50 paus jogada na mesa para, submissa e devedora da generosidade do gesto, tomar um táxi para casa. Mas se ela se levanta primeiro, como agora, quem paga a corrida é a sua insensatez, também por achar que não teria estômago para encarar uma pessoa que a levou à cama sem que em sã consciência se permitisse. Vestiu-se, tomou no ombro a bolsa, e atrás dos calcanhares bateu a porta. Ganhou a rua, parou um táxi e volto à agonia do silêncio do seu canto para, certamente, refazer no dia seguinte ou no escurecer da mesma tarde o que acaba de lastimar...

sábado, 3 de junho de 2017

SEXTA NO BAR


   
    Da mesa onde Zemané estava se via um belo par de pernas de quem, mesmo com saia curta, não se aquietava conversando com as amigas. Batata frita, meia garrafa de vodca e algumas latas de energético faziam das quatro um bando nada reverente. Uma delas falava tão alto que mal se ouvia a música ao passo que a mais espevitada se deitava na mesa para fazer fofoca de alguém do bar. Zemané se contorcia para não ser pego olhando e assim continuar se fartando com o que mais lhe enchia os olhos. Quando a morena se levantou para ir ao banheiro, duas outras a acompanharam, enquanto à dona das belas pernas restava guardar os lugares na mesa. Zemané se excitava com as pernas da garota que uma hora as tinha cruzadas e em outra as afastava o suficiente para que suas calcinhas, se é que as tinha vestido, ficassem a mostra de quem tivesse, como Zemané, o privilégio de sentar-se ali. Nervoso com o que via Zemané resolveu puxar assunto com ela. Chegou como quem não quer nada para dizer, abaixando-se sobre a mesa, que ela era a garota mais linda que já tinha visto e que a sua presença valorizava o lugar até então frequentado por quem só queria espairecer. Marcinha, acostumada com todo o tipo de assédio, inclusive os mais atrevidos, ficou apaixonada com o respeito e cuidado com que foi abordada. Por isso, depois de dizer o seu nome e saber o dele, perguntou se não queria sentar-se com elas, o que o jovem de pronto aceitou. 
A madrugada tinha chegado quando as meninas chamaram para ir embora. Zemané pagou a conta e decidiu levá-las, cada uma, à casa dela, deixando por último Marcinha com quem se entendeu e que mal se aguentava acordada. Prometendo as amigas que entregaria a menina à família Zemané levou sua caça a um motelzinho na esperança dela dormir um pouco para se recuperar. Zemané não gostava de fazer amor sem a participação da companheira, por isso assistia TV enquanto a moça dormia. Eram 10h da manhã quando o interfone tocou para avisar que o prazo de seis horas já tinha vencido e que ele precisava entregar o quarto ou pagar por uma nova "diária". Nesse momento foi que Zemané percebeu que estava sozinho na cama. Na cama e no resto do quarto, já que a garota por quem nutrira todos os desejos, mas por quem teve o maior respeito, meteu o pé, foi embora. Vazou levando o que ele tinha de valor, inclusive o carro que foi encontrado num shopping daquela cidade. Zemané não fez questão de nada que ela tinha levado, mas achou-se um grande idiota ao esperar que a moça que o encantara com o seu lindo par de pernas, melhorasse para com ele fazer o mais gostoso de todos os amores.

terça-feira, 30 de maio de 2017

O VELHO MASCATE

      Luiz Bolinha, como era conhecido, era mascate, um tipo de vendedor que saia de cidade em cidade oferecendo seus produtos. Era um tipo interessante, brincalhão, fascinante por assim dizer. - Um garotão -, como Zé Klein o definia. Bolinha não viajava sem antes preparar um plano de voo. Jamais deixou de programar o seu roteiro e quando dizia adeus a sua gente era sinal de que sabia para onde ir e o que fazer, em quais pensões faria as refeições e em que hotel descansaria o corpo. Luiz Bolinha tinha os Hotel reservados para os pernoites, mas esqueceu-se de um, por isso foi dormir de favor na casa de um velho aposentado que se prontificou tirá-lo daquele sufoco. Não fosse o agravamento da enfisema levar o velho ao posto de saúde e Luiz Bolinha teria dormido no banco da praça. Isso se Bruno e Marrone não estivessem dormindo lá. 
A casa do seu Neneu, velho que socorreu Luiz Bolinha, era bastante simples e o dono generoso por demais. O ambiente era humilde, mas limpo. O banheiro era digno de elogios. O lençol que recebeu para cobrir o colchonete cheirava a flor e a colcha tinha o perfume da bondade. Isso sem contar com o sorriso franco e generoso como jamais tinha visto. Depois de uma boa chuveirada o visitante se deitou ao longo do corredor sabendo que talvez atrapalhasse quem precisasse por ali passar, mas o cansaço cerrou seus olhos e dormiu. Dormiu até que os gemidos no quarto em frente o acordaram. Bolinha ficou sem saber o que fazer. Estava muito cansado, pingando de sono e mesmo não se esquecendo que estava de favor na casa de quem o tinha recebido como um parente, Luiz Bolinha se encheu de curiosidade. A cama no quarto ao lado fazia barulho e os gemidos eram de mulher. Uma dúvida, porém, baratinou Luiz; como aquele velho doente, como lhe pareceu, conseguia tal façanha? Que tipo de mulher seria aquela que transformava um velho asmático num garanhão? Bolinha cobriu a cabeça com o travesseiro, mas quando pensou que podia dormir, um grito agudo o pôs de pé. Luiz, esquecendo-se do sono e do cansaço, quis saber o que estava acontecendo. A voz que ouvia era de homem que pedia a mulher que o permitisse fazer com ela alguma coisa que o mascate não ouviu direito. Curioso, Luiz Bolinha tentou olhar através da fechadura, mas nada viu. Os gemidos e sussurros aumentaram até que um berro de prazer ou sofrimento antecipou o silêncio que se instalou nas redondezas.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

PARABÉNS PELA DATA.

    
     Hoje não só é o dia do seu aniversário como todos os outros o são para você, para mim e todo mundo.  De  uns anos para cá eu tenho dado graças a Deus por conseguir abrir os olhos para ver que  a vida ainda me sorri.  Ainda mexo os braços e as pernas, sinto o clima da casa, o cheiro do café na cozinha, assim como me levanto, ando e tenho fome.  Hoje, portanto, é o dia do meu aniversário, mas como já faz tanto tempo que o milagre acontece  eu não ligo mais ou digo que não ligo.  Tal acontecimento não é privilégio meu ou seu, mas da gente, dos bichos e da natureza.  Hoje, de verdade, o Milton César, meu gato, aniversaria como todo mundo, mas dessa vez é pra valer.  Faz muito tempo que ele viu, pela primeira vez, a luz do sol, da lua e das estrelas.  Viu a felicidade escancarada na cara dos pais quando chegou e, por fim, assistiu o começo dos dias, das tardes e do anoitecer, assim como sentiu e se deu conta do legado que recebeu; a vida.
     Do meu gato eu quero o primeiro pedaço de bolo e mais um dos seus belos sorrisos. Quero também que a sua felicidade seja o melhor dos legados que Deus já tenha dado a um filho.  Parabéns e aproveita a festa, porque ela é sua, enquanto a gente aqui, ali, e alhures, tem o privilégio de estar ao seu lado como seus amigos, seu pai e os seus amores.

sábado, 20 de maio de 2017

MARESIA.

   Tem gente que interpreta o sentimento das pessoas de tal maneira que só de ouvi-la eu fico todo arrepiado. Recentemente eu escrevi sobre o relacionamento que existe entre o homem e a mulher, e na minha explanação eu devo ter dito muito de mim e das pessoas que de certa forma dividem suas vida comigo. Na oportunidade eu dissertei sobre o simples e o complexo. Sobre as lagartas que comem a árvore onde moram e sobre a razão que faz mover o mundo. Também falei sobre as coisas que aparentam não serem importantes, mas que na verdade são as que ditam a velocidade do tempo. Uma dessas pessoas, cujo nome prefiro não declinar, falou-me da tristeza que maquio nos textos publicados no blog que visita com certa frequência.  Essa pessoa, sem nenhuma pretensão, reabriu a ferida que há muito eu achava ter cicatrizado.  Suas palavras eram de uma ternura semelhante a do mediador de sequestro prestes a imobilizar o inimigo. Foi desta forma, doce e gentil, que abriu as comportas onde veladas tristezas se mantinham sob a face serena das águas represadas. Diante dessa realidade eu me vi vazando minhas lágrimas sobre um textos que terminava. Chorei me confundindo nas concordância, trocando de lugar os acentos, os pontos, as vírgulas, assim como transfigurei minha cara  com o pranto derramado.
Talvez eu devesse me "analisar" para buscar o motivo da minha alma fazer tamanho alarde frente aos que têm o privilégio de ler nos gestos e nas palavras a euforia extrema ou a alegria exacerbada digna de quem não tem uma trilha por onde caminhar, como eu imaginava. É provável que a terapia  acalme o ímpeto das grandes ondas que tentam levar o barco do raciocínio aos rochedos ou ao fundo do mar como se lá fosse seu derradeiro porto.  Por isso o gosto da maresia nessas palavras

segunda-feira, 15 de maio de 2017

SABES POR QUÊ?

   Tu podes até dizer que não sou teu conhecido, teu colega, teu amigo, mas no fundo, no fundo, sou eu quem sabe o que verdadeiramente sou para ti. E se queres que eu te lembre não faças cerimônia pois eu ainda sou o vento que espalha a tua chama. A lágrima do teu pranto quando rola. O gol que te fez vibrar e a picada por onde a floresta dos teus desejos escapou. Eu não sou o sim ou o não, mas o talvez de todas as tuas incertezas. Eu sou as mãos que as tuas afagaram, a prece da tua fé, o remédio que te cura, a extrema-unção da tua tristeza e a alegria que te mata.
Eu sou, enfim, o que tu quiseres e o que não quiseres que eu seja.




quarta-feira, 10 de maio de 2017

SÓ SE FOR ASSIM...

   Não tenho prazer nenhum em falar que calei aquele que me ofendia. Que esmurrei quem me bater queria e para não colocar em suspeita a minha honra eu paguei uma conta que não fiz.  Não teria prazer algum dizendo ter desonrado algumas mulheres, mesmo que fosse mentira.  Que recebi troco a mais, que ajudei a dar porrada em um moleque que roubava uma velhinha e que eu tinha ensinado ao meu instrutor o que é ser cidadão. No entanto tem coisas que me enchem de orgulho como ser honesto, pagar minhas contas e devolver o que peguei emprestado.  Essas coisas fazem de mim uma pessoa diferente, pois, de certa forma, mesmo sabendo que pagando o que eu devo e devolvendo o que não é meu não passa de obrigação.  Não quero morrer achando que a minha passagem por este jardim foi em vão, por isso pretendo ensinar aos meus netos, caso seus pais tenham se esquecido, que ser direito não é errado e que ser honesto não é desonestidade.   Assim como vou dizer a eles que meu pai morreu sem saber como era ficar sem trabalhar. Sem saber o sentido da palavra cansaço e sem deixar que suas dores, que talvez o meu velho tivesse, tirasse dos seus lábios a doçura do sorriso.  Vou dizer que bondade não é sinônimo de bobeira.  Que evitar uma briga não é prova de covardia e que o amor, só o amor, lapida na rocha o seu nome. Assim, creio eu, todos serão felizes, como, acredito, o meu pai foi, eu sou, e meus filhos talvez também sejam.

sábado, 6 de maio de 2017

VISITA AO INFERNO.

    Não tinha um dia que a sogra não fosse várias vezes à sua casa. A qualquer momento, até cansada de uma longa viagem, ela ia perturbar a paz dos que sem a velhota iam melhor. As visitas constantes perturbavam o pobre do genro que para não ouvir os queixumes da esposa acabava engolindo os sapos de sempre. Quando alguém os visitava era a sogra quem dava as caras. Segredos não eram trocados naquelas dependências porque de orelha em pé a pessoa aparecia na maior cara de pau. Se alguém quisesse se esconder daquela criatura bastava ir a sua casa, lugar onde pouco ficava. Longos anos de angústia e sofrimento o rapaz passou com a presença indesejável que até de namorar a própria esposa da maneira que pretendia era impossível. A intimidade do casal era de certa maneira interrompida por quem batia na porta querendo falar sobre coisas que nem a ela interessava. Em um dos sábados quando se preparava para sentar-se à mesa com a família para o almoço, o capeta, em forma de mulher, apareceu. Felizmente foi vista antes de concluir o primeiro lance de escada. 
- A gente está almoçando, disse o genro fechando a cara. Quando terminarmos eu te chamo, completou sem olhar para baixo. A velha fingindo não ter ouvido continuou subindo até que foi impedida de fazer o que pretendia.
- Eu já falei que estamos almoçando e tão logo terminemos eu te chamo. Grunhiu enfurecido. Aí fechou o tempo. A velha começou a gritar e chorando dizia que a filha era dela. Que a neta era dela e que a casa  onde a gente morava também era dela. O genro que não queria que a família soubesse que estava acontecendo fez tudo para abafar o caso.  Disse saber que  não era dono de nada, mas que isso não vinha ao caso, mas que ela os deixasse almoçar em paz jurando chamá-la quando terminassem. Nesse momento a mulher e a filha, tomaram partido da coisa. Largaram seus pratos e foram abraçar a velha que chorosa se viu carregada para dentro, como ela queria, onde abraçadas choraram a "injustiça" do rapaz. Mais tarde a esposa, educada e compreensiva, entendeu os motivos da briga, só lamentou que fosse com a sua mãe, enquanto a filha, por quem daria a vida, há 15 dias não olhar para a sua cara. Enquanto a sogra não escancarou as portas do inferno não se deu por feliz. Isso nos garante que o diabo existe e o genro garante que mora na casa ao lado. Durante o tempo que a filha não fala com ele o diabo continua fazendo a ronda. Pelo visto a perturbação voltará a ser como antes, só a mocinha continuará fugindo do pai como o diabo apavorado foge da cruz.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A FÉ NÃO COSTUMA FAIÁ.

  

   Eu costumo dizer que médico não tem, necessariamente, que examinar o paciente tocando no corpo dele, sorrindo de suas histórias ou conversando como se ninguém mais o aguardassem na sala de espera. Médico, como eu vinha dizendo, não está ali para agradá-lo, mas para melhorar o seu sofrimento ou, se possível, curá-lo da enfermidade.  Não adianta tratar o doente como se fosse seu amigo e deixá-lo do mesmo jeito que chegou, mas, se o profissional tiver como amenizar o sofrimento de quem busca os seus serviços e ainda por cima for atencioso e gentil, palmas para ele.  Por outro lado o paciente precisa ter fé em quem vai examiná-lo.  Ter fé nos que o cercam em seu leito e ter fé, principalmente no criador, porque, quando o doente acredita em Deus e nos profissionais a sua volta ele encontra conforto à uma possível melhora ou à hora derradeira.  Havemos de acreditar em quem cuida da gente,  em quem torce por nós e principalmente naquele que, sendo noite ou sendo dia, faça sol ou faça chuva, nos tem sob o seu manto sagrado.  Com fé o doente melhora se o médico não acertar com a medicação. Melhora com a enfermeira tomando o seu pulso, com o zelador nos pés da cama escondendo uma lágrima e até contraria o tempo de vida anotado no prontuário aos pés da cama. E quando tudo passar. Quando o sol apontar os últimos raios dourados do outro lado do mar e a dor der um basta ao sofrimento, mesmo assim o senhor haverá de estar por perto para fechar, pela última vez, os olhos do seu filho.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

EU TE AMO VOCÊ.


    Eu sei que não falo corretamente e escrevendo eu consigo piorar o que já não vinha bem, mas não iria esconder um amor que não nasceu do meu interesse, mas da relação que mantemos. Eu jamais me calaria por falar e escrever errado. Não é por comer umas letras ou escrever outras que não fazem o menor sentido que deixarás de saber que sou um cara bastante castigado nesta minha curta existência e quando alguém melhora alguma coisa a meu favor eu me torno seu eterno escravo. Pelos caminhos por onde passei conheci um pouco de tudo. O que era bom era pouco e o que não prestava sobrava. Conheci gente roubando de quem nada tinha ou se tinha foi por anos de luta e sofrimento. Conheci pessoas doentes que tentavam, para viver um ou dois anos a mais, roubar os remédios daqueles que esperaram meses para receber do governo. Quanto à parte boa da coisa, é claro, que é esse amor que tu regas no meu coração. Contigo me sinto livre para abraçar todo mundo. Abraçar e dizer obrigado por me permitir amar como jamais pensei que eu fosse capaz. Há dias fiquei sabendo que onde tu pões os pés nasce de um tudo. Nasce e viça a fauna e a flora.  A doçura dos frutos não há quem dela conteste. As minas de ouro, os poços de petróleo, as pedras preciosas e o alimento que mata a fome dos que plantam, dos que cuidam, dos que trabalham na colheita e dos que nada tem para viver são fundamentais à vida dos teus filhos. Por isso eu também te amo, e, por me deixares falar o que sei e do jeito que sei sobre ti e tua gente. Amo-te por saberes que eu falo errado e mesmo assim tu te ris ao invés de me ignorar. De qualquer maneira te digo que pensando bem eu até falo e escrevo melhor do que muitos porque só faz 45 dias que eu soube da tua existência.(Antes era Pelé,Lava Jato e nada mais) Nesse pequeno espaço de tempo aprendi a falar e a entender o que tu dizes e só o fiz rapidinho por causa do amor que tu despertaste em mim. Amo-te, Brasil, terra querida, que és linda e gentil. Hospitaleira e carinhosa com os que aqui aportam e mesmo sabendo que uma pequena parte do teu povo tenta te devorar aos pedaços tu continuas de uma forma ou de outra, a manter na boca da maioria dos teus o sorriso da esperança. 
  Espero que acredite no amor desse cara que nasceu no outro lado do mundo onde tudo que pagamos volta em benefício da população, mas se quisermos sorrir como o povo daqui tão bem faz, haveremos de pagar um bom dinheiro para que nos façam cócegas ou viveremos emburrados como eu era.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

NÃO MATE SEUS SONHOS...

   
    Ela era uma criança que enrubescia ao ver o garoto pobre e sorridente que ultimamente vinha ao seu portão. Do quintal onde a menina de 12 anos morava podia ver o garoto se acomodar nos degraus que acessavam a entrada de sua casa, como a garotada nos fins de tarde. Aquele era o momento mais confuso que a pequena atravessava. Será que esse moleque sabe que eu existo ou pelo menos já me teria visto em algum momento? Será que eu devo arrumar um pretexto para ser vista por quem me faz tremer quando ele aparece? - Pensava a jovem sem tirar os olhos do menino. Aquela criança, cujos hormônios esculpiam o corpo, poderia, quem sabe, vir a ser o homem de sua vida? Mais cedo do que pensava os dois se encontraram na gincana entre as escolas. Naquele momento a menina se viu instigada a falar com ele, mas estancou diante da sua figura. Ela, que carregava consigo uma gota de esperança, sentiu o calor esquentar-lhe o rosto e um fogo propenso a queimar-lhe o peito não fez outra coisa senão olhá-lo de tão perto que poderia tê-lo tocado se quisesse. Mas não o fez. Angustiava-lhe o desejo de sabê-lo sentindo por ela o mesmo que nela o menino causava. Na esperança de reforçar a equipe o instrutor achou conveniente trocar o menino por outro mais experiente. Não aquentando a pressão a equipe da menina acabou derrotada. Mesmo não tendo o que comemorar, lá estava ela para ver o menino, mais uma vez. Seria o garoto o primeiro e único amor de sua vida? - Voltou a se perguntar.
Outros encontros, casuais, foram surgindo com o passar dos anos, porém um a levou às lágrimas; a morte da avó do coleguinha. D.Arvelina cuidara do menino desde o nascimento, mas ao primeiro assédio da morte, não resistiu. Entregou-se a ela. Cruzou sobre o peito suas mãos bondosas, fechou o azul dos seus olhos riscando nos lábios o último sorriso. Queria ser lembrada pelo neto como uma pessoa feliz até na hora da morte. O menino acusou o golpe e talvez por isso não se tenha dado conta dos braços miúdos que o envolveram e do beijo na face aonde escorria uma lágrima. Não foi naquela oportunidade que a menina seria notada por ele. Quis a sorte que os dois se encontrassem num momento de grande tristeza para ele. Tempos mais tarde o time do rapaz conquistava sobre o seu principal oponente o título de campeão brasileiro e entre risos de felicidade acabou entre os braços daquela menina que nem gostava de futebol. Fingindo estar feliz com o resultado o beijou na face e com ele ficou o tempo suficiente para alinhavar os seus sonhos. Outros encontros garantiam a ela que estavam namorando. Aos poucos o par foi se conhecendo e dos dois, ele se acomodou primeiro. Não dava pinta de querer nada da vida e de campeão que fora na gincana escolar o moleque já não tinha mais nada. Ela, por sua vez, era mais atirada e se não fosse por sua ousadia, os dois nem teriam se conhecido. Pegada eu não percebi que tivesse, mas, enfim, ele era um bom companheiro, um bom namorado, um ótimo rapaz. Mas sabia que estava errada. Quantas vezes a menina sonhava encontrá-lo galopando num lindo cavalo branco para além dos contos de fadas, os príncipes e as princesas vivem as suas histórias. O desinteresse pelas coisas e por ela, de certa maneira, deixou balançando o que ela achava que sentia por ele e até se questionava se o homem que morava com ela era o mesmo moleque que sentado nos degraus do seu portão olhava as pipas no céu da sua rua. Há muito ela achava que não era, mas só agora tinha certeza. Meu Deus, por que permitiu que eu mesma matasse o melhor dos meus sonhos? Por que não o fez mudar com seus pais para um outro bairro, para uma uma cidade distante, para outro estado ou para outro país? Se assim tivesse acontecido eu não estaria tão triste com ele deitado ao meu lado, mas feliz em me lembrar quando corria pelas ruas atrás da bola que jogava com a molecada enquanto eu fazia tranças na boneca que minha madrinha me deu num dos poucos natais quando alguém se lembrou de mim. Talvez eu não tivesse resistido se você não fosse meu na hora que foi, mas também você, quem sabe, não tivesse tido a sorte de conseguir alguém melhor do que eu? Pensando assim estou dando a entender que cansei de correr atrás do meu próprio rabo. - Ela se perguntava como se não estivesse vivendo aquilo. Agora que o tempo passou e tudo na gente ficou diferente eu já não o vejo com os mesmo olhos que me levam a perguntar se ele é mesmo aquele moleque por quem fiz loucuras só para que me notasse. Eu sei, disse ela aos seus botões, que você está aqui, deitado ao meu lado, mesmo assim eu sinto muito a sua falta. Talvez se você mudasse a sua maneira, se me tratasse com mais interesse, se ouvisse do começo ao fim o que eu falo talvez mudasse alguma coisa. O tempo, no entanto, me mostra o cristal rachado e não fui eu sozinha quem fez esse estrago, você me induziu ao erro quando me obrigou a deixar de ser criança, a pensar e agir como mulher. Talvez por isso nada mais pode ser mudado a não ser para a pior. Ah menino da minha infância, que saudade você pinta em minhas lembranças. Resmungava ela no momento em que ele puxava o lençol de cima dela para se cobrir.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

COM MUITA HONRA.

     Na calçada em frente a um depósito de bebida os vendedores vão saindo para trabalhar. Se alguém me pega olhando, enquanto passo, respondo com um aceno de cabeça em cumprimento. Mal sabem que durante anos eu fiz parte daquela trupe e graças a estrutura da empresa e a generosidade do patrão eu estudei e me formei doutor em leis. No final dos meus estudos meu pai montou um escritório, que seria meu, num espaço vago da sua casa.  Diploma em baixo do braço, aperto no peito e na mão uma carta de rescisão que o meu patrão não aceito. Deu-me em troca, além do abraço arrojado e palavras de encorajamento, valores que jamais pensei ter direito. E como sabemos Internet não havia naquele tempo, por isso os anúncios dos meus serviços eram postados nas páginas amarelas e foi através delas que alguém me contatou.  Eufórico pedi que viesse à minha sala. Assim que o vi percebi que o sujeito era um tipo conhecido, mas o que mais me chamou a atenção foi o nome da empresa que queria acionar. Tratava-se da mesma onde  trabalhei, ganhei meu dinheiro, respeitei e fui respeitado. Como poderia processar pessoas dignas e que tanto fizeram por mim e por muitos que por lá passaram, como aquelas? Quando nos despedimos prometi encaixá-lo na minha agenda, mas ligaria para os detalhes.  Gente, se eu me comprometesse com certeza me esforçaria para ganhar a causa, e se ganhasse alguém tiraria uma foto que se transformaria num post e certamente iria para o alto da parede atrás de mim. Depois eu, com o peso na consciência, ficaria sem dormir o resto da minha vida. 
Dei uma desculpa aos meus pais e fui à casa de um amigo onde fiquei aquele resto de semana.  Na segunda feira me inscrevi no vestibular da USP onde há dois anos me formei em jornalismo.   
- Como jurista talvez não comentasse o fato, mas como escritor me arrisco falar dos outros, inclusive das minhas fraquezas.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

CURAR OU MATAR.

   Para cada remédio ou aparelho que possa curar a doença no ser humano é introduzido no mercado um milhão de artefatos que mutila ou mata. Desta vez, no entanto, aconteceu diferente. Acabo de ler nos jornais que um estudante brasileiro que fazia estágio nos Estados Unidos descobriu, através de pesquisas nos laboratórios de Harvard em Massachusetts, um novo meio para curar a tuberculose, que no mundo mata tanto quanto a AIDS, sem a necessidade do uso do antibiótico, que agride a flora do organismo combalido. (Dessa vez com o auxílio dessa mesma força armada) O estudante pernambucano desenvolveu a tecnologia que é capaz de tratar infecções através da irradiação de luz nos tecidos humanos. Em uma frequência que mata até mesmo as bactérias, chamadas de resistentes, os equipamentos são capazes de eliminar a infecção em cerca de 60 minutos.  Bem mais eficiente que os antibióticos que existem nas farmácias e hospitais, a pesquisa já foi testada, graças ao patrocínio do do exército norte-americano para eliminar uma bactéria encontrada em ferimentos de soldados que voltaram do Iraque. 
Como uma lanterna portátil, o equipamento conta com lâmpadas de led preparada para irradiar uma frequência determinada de luz, que é visível aos nossos olhos e não tem efeito colateral.
Uma microagulha guia essa luz, da fonte para dentro dos tecidos, atingindo até mesmo áreas mais profundas.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

DEU RUIM...

     Tem dia que você acorda sem forças para sair da cama. O dia passa com você torcendo para ouvir o Bonner dizer; boa-noite, e você voltar para a cama de onde jamais deveria ter se levantado.  Tem esses dias na vida da gente, mas o importante é saber se o problema é passageiro e não diz respeito a uma possível depressão, mal que afeta uma grande parcela da população.  Você já se imaginou torcendo para que o tempo acelere os passos e leve o dia consigo noite afora?  Dizem os entendidos que você, nesse caso, deve procurar um médico, e ai eu pergunto; como procurar por um especialista num país aonde se morre de gripe?  Talvez nem um terço da população mundial tenha acesso à prevenção dos males corriqueiros, principalmente da prevenção que ainda é um mistério para os mais esclarecidos.  Eu sou um desses privilegiados que dispõe de recurso para recorrer a um craque no assunto, mas, quem me garante que também não faço parte da maioria que, mesmo tendo acesso aos clínicos,  acham que isso é coisa passageira e que logo, logo, estarei melhor?

quinta-feira, 6 de abril de 2017

DIA 8 DE ABRIL MORRE PABLO PICASSO.

     
      Quando o mês de abril me bate a porta eu me recordo da importância que esse mês teve nos anos anteriores. Em um deles morre o pintor espanhol e em um outro um golpe militar derruba Jango da presidência. Nesse mês eu só não acho importante o dia 29, quando fico um pouco mais velho segundo os registros, mas me incomoda saber que um certo sujeito aparecendo do nada nasce antes de mim. Talvez essa pessoa esteja nesse momento com a nata dos seus amigos reunidos e por isso não dará importância ao que eu disser por aqui, e caso ele não se recorde da importância da data ou não se importar com o que eu disser, eu cá, no alto da montanha me manifesto, porque hoje é dia de festa.  Este mês Leonardo Da Vinci  e meu filho também aniversariam, mas quem já me viu falar do nascimento de outra pessoa senão daquele de quem eu me lembro a qualquer dia e a qualquer hora?  Eu nunca pedi um abraço a Da Vinci ou teria pedido ao meu filho que viesse me visitar, mas pedi, sem vergonha e nenhum constrangimento que o meu irmão, como ele se refere a mim, esquecesse os mosquitos na orla onde mora e viesse me dar esse abraço, um beijo, e como prova de sua amizade gargalhasse gostoso, como costuma fazer.  Digam o que vocês quiserem dos dois.  Falem o que acharem que devem de um ou do outro, mas não neguem a felicidade que os caras estampam na minha cara com a sua presença.  Al, você é meu irmão, meu amigo e fiel camarada.  Jamais eu teria dito que morreria por você, mas se depender de mim a gente sequer adoece.  Parabéns, camarada e feliz aniversário.  Caso o seu abraço me venha envolver esse corpo que teima em manter-se de pé, saiba, que você é a pessoa mais importante que eu tenho na vida, mesmo que eu tenha de discutir com  os outros o teor da questão.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

TUDO TEM LIMITE...

       Ela tem ficado muito sozinha ultimamente e a prova do mal que a solidão faz a ela é o carrapato que vem se tornando para com os que, talvez nem por vontade própria, vai visitá-la. Assem tem sido a coisa e pelo que vejo não há o que a faça melhorar. Ou será que não é um saco a gente visitar uma pessoa que a todo momento nos oferece uma água, um café, ou é preciso dizer para não se preocupar com a comida porque vamos almoçar na casa de um parente na cidade vizinha?  E quando nos levam, coercitivamente, a olhar do alpendre a paisagem que a todo momento é postada nas redes sociais? Como se vê, é um saco, na excepção da palavra, aguentar dois minutos ao lado de quem não te deixa completar uma frase sem acrescentar alguma coisa achando que vai te favorecer.  Dizem as más línguas, que durante as chuva que castigaram o povo serrano acabando com a esperança da metade dos  seus habitantes, um tal de Sérgio, que tinha perdido tudo, teve o desprazer de ser recolhido por aquele que já vinha se achando sozinho a partir de então.  No terceiro dia de convívio o Sérgio foi embora.  Havia resistido a tempestade, mas não sabendo como fugir do grude do dono da casa, pegou seu boné e foi-se embora. Agora que as visitas se fazem mais a miúde, talvez, o sujeito se manque e melhore o seu comportamento, ou morrerá do jeito que viveu a metade da sua existência; chato como carrapato por querer agradar.

domingo, 2 de abril de 2017

ALICE NO PAÍS.

    Para alguns um sorriso é motivo de felicidade, enquanto para outros, milhões de dólares não acabam com o seu sofrimento.  Tem gente que chora por ter furado um dedo enquanto a mulher não se importa que lhe tirem de junto ao coração, o filho que ora lhe suga o peito.  Todos aplaudem a criança que vem à luz, mas nem todos se lembram do caminho que a mãe percorreu. Hoje, Alice, que há muito vem sendo a maravilha do mundo, risca na cara dos crédulos o sorriso da felicidade sem que pouco ou muitos dólares fossem necessários para isso. Parabéns à mãe que esconde no sorriso a dor do parto. Parabéns aos escudeiros que durante o tempo de maturação da semente não estavam por perto, mesmo assim nunca a perderam de vista. Parabéns a pequena que não viverá mais tão só e a gente que sente na entrada do túnel a claridade da luz.

quarta-feira, 29 de março de 2017

HOJE É SEXTA-FEIRA.


     Essa madrugada foi de arrepiar com um louco esmurrando à minha porta - eu tinha acabado de chegar do bar onde nas sextas-feiras tomo um chope com os amigos. Normalmente eu volto de carona, mas desta vez fui obrigado a sair às escondidas tal era o meu cansaço. O dia tinha sido puxado, por isso a indelicadeza do meu gesto. Assim que cheguei à casa fui direto paro o banheiro.  Tomei um banho quente e me atirei na cama na intenção de levantar para almoçar caso alguém me convidasse. O primeiro pontapé na minha porta eu o senti como se fosse na minha bunda. Dei um salto, gritei quatro palavrões e entes que eu perguntasse o nome do meliante uma voz de mulher ou de criança voltou a chamar meu nome. Assim que a senhora adentrou o pedaço arrisquei uma olhada para o lado de fora na garantia dela estar sozinha. Certo disso perguntei o que queria e foi aí que eu me dei conta que estava nu como é do meu costume quando vou dormir. Pedindo esculpas eu puxei a toalha da mesa e cobri o que pude das minhas vergonhas. 
- Você pode me dar um copo d'água? - Pediu-me fingindo não ter visto o que esteve diante dos seus olhos. - Claro que sim. Vá à cozinha e sirva-se enquanto eu me visto.
Assim que saiu da minha frente foi que eu pude perceber a bela mulher que ela era. 40 anos, bem calçada e bem vestida, mas não tinha nada nas mãos, nem mesmo uma carteira onde guardasse os documentos. Será que tinha deixado com alguém que esperava por ela lá fora? E se não for isso o que essa mulher poderia querer de um cara como eu? - Resmunguei comigo mesmo. Esperei uns cinco minutos e nada da mulher voltar da cozinha, por isso decidi por procurá-la. A porta do banheiro, por estar encostada, me deixou perceber que usava o meu sabonete e a duchinha higiênica. Meu Deus, o que essa garota estaria pretendendo na minha casa àquela hora? 
Mais cinco minutos e ela voltou mais bonita. Cabelos penteados, lábios pintados e a maquiagem retocada. Fora o que ela tinha lavado e eu não sabia o que era. O vestido havia encurtado como se ela o tivesse enrolado na altura da cintura.  O decote agora deixava transparecer a curvatura dos seios, o que antes não se podia perceber. Tentei apagar os maus pensamentos que me vinham através dos meus olhos quando ela me pediu para dormir na minha casa aquele resto de noite. 
- Eu só quero um lugar seguro onde eu possa descansar um pouco. Amanhã quando você acordar eu já terei ido embora. - Disse-me com voz de menina.
- Aqui? Sozinha comigo? Você nem me conhece, garota. E eu muito menos conheço você. - Falei surpreso com o que ela teria dito.
Acordei com o celular vibrando e nele a mensagem de um amigo do Espirito Santo me dizendo que estava a caminho para almoçar comigo. Olhei para o lado e vi, com os olhos que a terra há de comer, a mesma mulher que antes esmurrou a minha porta completamente nua na minha cama com uma das coxas sobre a minha barriga me prendendo embaixo dela. Deixei o celular onde estava e voltei a dormir.
Não almocei com ninguém naquele dia, mas jantamos nós quatro. Eu, a mulher que esmurra porta e o casal de amigos para quem nada contei.

sexta-feira, 24 de março de 2017

ME MATA OU EU TE MATO, DE CIÚME.

     Quantas vezes eu bebi por tua causa. Quantas outras por ti me embriaguei. Quantas vezes acordei por ti chorando e quantas noites nem dormir eu consegui. Muitas foram as ocasiões que eu jurei acabar contigo. Já quis apertar o teu pescoço e com a boca junto a tua boca dizer o que eu sempre quis, mas se coragem e força eu tivesse, beijar-te era o que me aconteceria. Já quis sangrar-te até a morte por teres me cercado, preso, julgado e condenado a viver o resto dos meus dias sentindo o que por ti me mata a cada dia. Já bebi e não comi. Já acordei sem ter dormido. Já rezei para esquecer-te, mas antes me preocupei com tua gripe. Enfim, força e coragem para acabar com a vida de uma pessoa eu sei que não possuo ou eu teria acabado com a minha como tu estás fazendo.