sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

POR CIMA DA CERCA

      Eu queria dar uns pegas na filha do meu novo vizinho, mas nada conspirava a favor. Primeiro eram os meus estudos, depois minha mãe dizendo que crente não gosta de seguidores da doutrina espírita, como nós, e por fim, o pai da garota não permitindo a filha de fazer amizade com quem não fosse da sua crença.  Enquanto procurava meios para me aproximar  eu a observava da sacada de onde a via trocar de roupa ou até nua, perambulando de um cômodo ao outro. Sempre achei que ela soubesse que a sombra que se mexia na varanda fosse minha, até porque, mamãe fazia questão de deixar a luz acesa quando escurecia. Enquanto isso os hormônios esculturavam em mim o homem que eu me tornara, e no corpo da filha do vizinho esboçava uma bela mulher. O meu pai sofria quando me via triste por não ter como chegar na moça até me convencer a fazer um curso, na igreja do bairro, sobre os mistérios da bíblia.  Um dia, depois da aula, o pastor me convidou para o retiro que faziam. É claro que eu não dormi a partir daquela hora pensando no privilégio de poder vê-la de perto. De sentir o seu perfume e até tocar, mesmo que levemente, em quem fizera de mim, a distância, o que todas as mulheres fazem quando as assediamos.  Na primeira noite procurei um jeito de ficar ao seu lado o mais próximo que pude e quando todos fecharam os olhos em oração eu arregalei os meus para pegá-la me lambendo com os seus. Com a cabeça fiz um gesto para que saísse  de onde os fiéis diziam amém ao pregador.  E no terceiro aleluia a gente já se beijava e eu tocava no rosto dela, depois nos seios por sobre a roupa, e  por baixo, logo depois.  Ninguém deu por nossa falta,  mas na manhã seguinte era evidente a nossa felicidade. Da minha parte exultava com tudo e qualquer coisa, enquanto da parte dela o viço da pele e o brilho nos olhos davam a todos a certeza de que Deus, de fato, existia, até para os céticos como eu achava que era.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

UM HOMEM DE MEIA TIGELA.



      Sexta-feira é dia de chope aqui e em qualquer lugar deste planeta e no banco onde eu trabalhava não seria diferente. Naquela tarde a agência fervia. Era cliente pagando conta, fazendo saque e depositando enquanto a gente se virava para atendê-los e aos telefones que não paravam de tocar, inclusive aquele que esgoelava no canto da minha mesa. Despachei um correntista e fui até lá.
  - Banco Itaú, boa tarde... Sim sou eu.  Mas quem está falando? - Perguntei como se não soubesse que a voz era a mesma que me dizia que um dia me levaria para a cama para fazer comigo coisas das quais nunca me esqueceria. E desligava rindo na minha cara. Dessa vez foi um pouco diferente.  A dona da voz fora mais taxativa. Disse que o seu sonho seria me levar a um lugar onde pudesse me dar seus beijos e seus carinhos e em troca teria os amasso de que tanto precisava.  Eu devo ter ficado vermelho como um tomate, mas confesso que a vontade de conhecê-la aumentava a cada vez que o telefone tocava.
   - Por favor, pare de brincadeira porque eu estou trabalhando, e também não me ligue mais porque tudo o que você fala é mentira. Você não teria coragem de ficar sozinha comigo nem por um minuto, sua tonta.
   - Arranjes um lugar onde um não veja a cara do outro e eu te darei o melhor orgasmo que já tiveste - disse com voz de quem sobe pelas paredes. Passe o tempo que passar e tu jamais te esquecerás do que deixarei que faças comigo na cama - concluiu.
Tremi naquele momento. Quem seria essa desvairada que sempre me telefona como se fosse um homem assediando a mulher desejada? Será que teria mesmo esse poder para humilhar um cara com 30 anos e que sabe tudo de mulher como eu acho que sei? 
  - Eu garanto, rapaz, que nunca te esquecerás do encontro que teremos esta noite. Sim porque será hoje ou nunca mais saberá de mim - disse ela sorrindo. 
  - É claro que não verás o meu rosto, mas poderás me descobrir com tuas mãos, pois as quero no meu corpo, nos meus seios, nas pernas e onde mais se atreverem. No final - concluiu - tu terás a tua disposição uma fêmea que escolhe, entre tantos que a cantam, o cara certo para se deixar possuir.  Encontre o lugar, menos motel, onde possamos ficar juntos que dentro de 15 minutos volto a te ligar  - e desligou.  Fiquei com o fone mudo no meu ouvido pensando com quem arranjaria um espaço para esse evento. Foi aí que eu me lembrei de um cliente.  Liguei e consegui as chaves do seu escritório. 15 minutos depois, como havia prometido, ela ligou. Desta vez sem muita firula prometeu que estaria no endereço às 19h. e que todas as luzes deveriam estar apagadas ou ela retornaria antes que eu desse por sua presença.  
A hora não passava, mas quando ela abriu a porta e entrou minha vista que já se acostumara com a escuridão deixou-me ver com detalhes a sua linda silhueta.  De fato, mulher com aquele perfil eu jamais tive em minha cama, muito menos cheirando a fruta madura e que tivesse cabelos sedosos, pele de pêssego em época de safra, seios de adolescente e um orgasmo longo e choroso, como os tinha em meus sonhos, antigamente.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

UM DEDO DE MULHER.

 
     A firma deu-me férias antes do tempo e como a maioria dos colegas que as tirou foi mandada embora eu vislumbrei a possibilidade do desemprego.  Logo eu que tinha passado os melhores réveillons na casa do chefe a convite do casal! Está certo que só me convidaram porque a minha coluna alavancava a venda do vespertino até então. Já os motivos da mulher do chefe sugerir-lhe que me convidasse podia ser qualquer um, menos esse. Será que ele já tinha a bota apontada para minha bunda, mas sua mulher  a estava segurando? Que razão ele teria para me mandar embora se eu nunca aceitei  ir a sua casa, por mais que a esposa insistisse,  quando ele estava viajando? Meu Deus, essa dúvida vai acabar comigo,  mesmo eu não tendo certeza de que serei ou não demitido.
 Aos trancos e barrancos eu teria de"gozar" os dias que me deram.  E foi com esse pensamento que  ajuntei minhas tralhas e voltei à minha casa na intensão de um banho quente e me jogar na cama para, caso eu não dormisse, soluçar todas as minhas pitangas. Fechei o registro e sem olhar procurei a toalha que me foi dada por quem não deveria estar ali. - Dona Creusa, pelo amor de Deus, o que a senhora está fazendo aqui? Imagina se seu marido me pega  com a senhora aqui dentro, o que  acha que ele faria comigo além de me matar?     - Quem te garante que serás mandado embora, hein? - Perguntou fechando o vaso e sentando na tampa, e jogando os cabelos para o lado cruzou as grossas e bonitas pernas diante do meu nariz.  Em tempo nenhum eu teria sonhado com aquela mulher sozinha no meu banheiro massageando com os olhos o único músculo sobre o qual não tenho domínio. Eu precisava, mas não tinha voz para pedir que saísse, que fosse embora antes daquele pesadelo tomar nova dimensão, mas como a mulher não tirava os olhos da minha virilha acabei dando conta de a toalha cobrir todo o meu corpo, menos a ereção que  pulsava como papo de lagarto diante da presa. Eu também já não tinha controle, mas enlouqueci de vez no momento em que atirou-se de joelhos na direção do que vira buscar. D. Creusa, chorando, esfregava as minhas vergonhas no rosto dando sinal de que esse tipo de prato não era servido nas suas refeições e naquela noite ela fartara-se. Eu juro que não entendia por que se mantinha casada se o jornal e todos os bens do casal eram dela. Por que seu marido não dava o que a esposa buscava na cama de tantos amantes? 
   Eram nove horas do dia seguinte quando o celular tocou na minha cabeceira.
   - Alô! É, sou eu.  Mas eu estou de férias, Dr. Antônio Ignácio, esqueceu? Meia hora depois eu chegava na redação onde uma pilha de papel esperava por mim.
    - Desculpe, mas as férias eram para alguém da sucursal de Vitória e que por acaso tem o seu nome - e concluiu:   Foi  D. Creusa que, hoje de manhã, percebeu o erro.  Agora anda com isso porque o tempo urge e sem a sua matéria o vespertino não vai  às ruas.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

NACO DE PROSA em CASA DE MADEIRA.

    

   Talvez a lembrança de ter apertado a garganta de uma pessoa por quem eu tinha uma grande afeição e que para mim era amigo do peito, um  irmão camarada e de cuja lembrança me levou a narrar aquele episódio.  Também me lembro que não havia nada que um fizesse sem a companhia do outro e foi graças a essa fidelidade e confiança que a gente fez  a maluquice que contei.  Muitas pessoas de blogs que eu sigo comentaram sobre a coragem que tivemos, mas duas em especial;  Janicce do Blog Casa de Madeira, e Marli, do Blog Naco de Prosa, tocaram  fundo nas minhas memórias com seus comentários ou eu não estaria voltando ao assunto.  Não diria, por exemplo, que as vezes, quando eu era solteiro e sentindo o vazio consumir minha vida eu telefonava para a pessoa de cujo pescoço apertei e que, faço questão de lembrar, em tempo nenhum rejeitou meus convites por mais absurdos que parecessem. Ligava e a convidava a sair e não importava se fosse para conhecer uma cidade distante, almoçar em lugares exóticos ou simplesmente tomar um café na subida de Paulo de Frontim ou passar alguns momentos em Miguel Pereira, Mendes ou Conservatória em Valença onde aplaudíamos os cancioneiros em algumas ocasiões. A gente varava estrada em busca de aventura e argumento para as nossas conversas. Almoçar em casa de gente que a gente não conhecia no interior do estado em troca de alguns reais, um abraço e algumas histórias a gente já fez de montão e na volta ainda encontrávamos tempo para um drinque nos motéis da beira do caminho onde fazíamos o que nem em Kama sutra cabia. O pior é que eramos amigos e um não se metia na vida romântica do outro. Nesse relacionamento ela só fazia questão que eu a satisfizesse primeiro, depois, segundo ela dizia, eu podia fazer o que me desse na telha e do jeito que me desse tesão.  Só não valia fio terra, até porque ninguém nunca tocou no assunto, drogas, a não ser bebida, e do sadomasoquismo só algumas palmadas a pedido dela já que, segundo diz o poeta, um tapinha não dói..
Como você previu, Janicce, havia mais alguma coisa naquela relação sim, pois durou todo o nosso tempo de solteiro.  Hoje a gente se fala nas datas festivas, mas não sabemos nada mais um do outro até porque ninguém se atreve perguntar.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

NOS BRAÇOS DO DESTINO.

    
   Não fosse um jovem morador de rua puxar o bêbado da frente do carro e Cecília o teria atropelado naquela noite chuvosa de domingo nas pistas do Parque do Flamengo.  Foi tudo muito rápido e quando conseguiu parar o carro os dois já tinham sumido na confusão. Cecília precisava abraçar aquele jovem em agradecimento ao que fizera, mas parar com aquela pista escorregadia só mais na frente seria possível. Dias e dias Cecília tentava encontrá-lo sem sucesso. Mas do alto, quando o avião se preparava para aterrissar no Santos Dumont  ela descobriu que pessoas moravam sob as passarelas daquelas vias e, quem sabe, em uma delas não encontrasse a pessoa que procurava? Dois dias depois lá estava Cecília  procurando por um rosto conhecido. Cansada e pensando em desistir arriscou através da fresta de uma porta improvisada como havia feito em duas delas, e para sua surpresa viu um negro despido das roupas jogando água no corpo num banho estilizado. Finalmente a sorte lhe sorria e Cecília, não só encontrou quem procurava como empalideceu com o que seus olhos podiam ver.  Não queria acreditar que existisse alguém tão bem dotado como aquele ali, ao alcance das suas mãos. Marcelo, um ex atleta do basquete que trocara o esporte pelas drogas e hoje lutava para sair do buraco, vestiu uma surrada bermuda e saiu para atender a quem chamava. O propósito de Cecília era dar a ele um abraço e algum dinheiro em recompensa, mas depois de tê-lo lambido com seus olhos gulosos, Cecília mudou de ideia e de planos.  Convenceu-o a tomar um táxi e ir com ela a sua casa onde pode tomar um banho de verdade. Vestir roupas limpas e comer como filho de ladrão quando o pai está solto. 
- A partir desse momento aqui é a sua casa - disse Cecília com as bochechas avermelhadas e os seios entumecidos como noiva adentra ao quarto de núpcias no colo do marido.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

ROLETA MAIS DO QUE RUSSA .

     

    Eu tinha oito anos quando Danny, com cinco, veio com os pais morar no nosso condomínio.  Com sete a garota gritava com os moleques quando dela descordavam e só não apanhavam porque corriam.  No momento em que Danny percebeu que podia dobrar o mundo às suas vontades ela não tinha mais do que treze anos.  Nessa época já falava como mulher, pensava e agia como mulher e para ninguém ter dúvida de sua grandeza, fazia coisas que até Deus duvidava. 
Aos vinte e oito Danny estava casada com um criador de gado que ficava mais tempo no Mato Grosso cuidando dos bichos do que no Rio com sua encantadora mulher. No réveillon de 2007 (para 2008) a gente se encontrou nas areias de Copacabana. Dez dias antes do natal minha namorada tinha me dado um pé na bunda por conta de um cara mais velho e cheio do dinheiro.  Danny também passaria sozinha a virada do ano por ter discutido com quem, muito zangado, tomou um avião e voltou ao convívio das vacas que, como dizia, não o tratavam tão mal como Danny. Depois de muito trelelé e tantos beijinhos fomos ao quiosque do posto 6 provar da caipirinha que um amigo vivia elogiando. Em quinze minutos tomamos três cada um. Depois o garçom ligou no modo automático e as caipirinhas chegavam assim que o nível dos nossos copos ia baixando.  Enquanto isso a gente falava, falava e tanto falamos que  praticamente não vimos  o show do Grupo Revelação antes do pipocar dos fogos. Quando a festa acabou fomos à casa dela, ou melhor, nos arrastamos até a esquina da Paula Freitas com Barata Ribeiro  onde morava. Tomamos um banho demorado que muito nos melhorou.  Depois, a  pedido dela, tentei colocá-la para dormir, mas não deu.  Não deu porque a gente se beijou, se beijo, e tanto a gente se beijou que acabamos por fazer  amor ali mesmo, na cama do fazendeiro. Na hora do rala e rola a garota pegou  minhas mãos e as apertou em volta do seu pescoço. No primeiro aperto Danny deu pinta de que ia gozar. Apertei mais um pouco e ela finalmente gozou como eu achei que conseguiria. Apertei mais um pouco e ela fez-me pensar que teria naquele momento o maior e melhor orgasmo de sua vida, e eu apertei. Quarenta minutos se passaram e eu ainda me via agarrado ao pescoço de quem, de olhos vidrados, gozava como jamais pensei que alguém fosse capaz.   E, quanto mais eu forçava o meu corpo para dentro do dela, mais minhas mãos apertavam sua garganta fazendo brilharem seus olhos e o corpo explodir em convulsões. Repetimos a maluquice diversas vezes naquela madrugada e em nenhum momento Danny deixou de responder com  orgasmos vibrantes ou tentou afastar minhas mãos. Não fosse meu fígado rejeitar as últimas doses de bebida e eu, com toda a certeza, a teria estrangulado, tamanho  é o tesão que a coisa provoca na gente. 
Quando acordei a maluca da Danny ainda dormia. Dei um beijo no canto de sua boca e saí sem fazer barulho. Mais tarde fiquei sabendo que a minha ex viajara para o Mato Grosso onde deve ter passado o Revéillon, enquanto eu e Danny acordávamos, cada um em sua cama, de um sonho que não dormimos.
- Notícias de  quem conseguiu tudo na vida e quase também conquistou o infinito eu não tenho, talvez por não consultar o obituário regularmente.

sábado, 20 de janeiro de 2018

POR QUE CALAR A BOCA?

    

    Em uma casa onde ninguém se entende porque se acharem dono da razão, não pode haver paz, a não ser que os pais apaguem a lousa e nela insiram as normas a serem seguidas. Cada um com a sua obrigação, mas o respeito deve ser entre todos. Os pais seriam os líderes e cada tarefa, não fazendo parte do que foi combinado, deve e será discutida com o líder. Brigas sem motivos, desentendimento entre os pais quanto a governança e até a separação do casal talvez possam influenciar na formação da personalidade de um filho, mas nenhuma porta se escancara tão rápido à homossexualidade - não sendo genética - do que uma família sem regras governada por pais omissos. Indispensável, seria dizer, que o aplauso às pequenas vitórias, por menores que sejam não tem preço. O menino que tem traços afeminados ou comportamento de menina, necessariamente não será gay no decorrer da vida, mas sente que trilha por caminhos espinhosos. Não existe só uma causa que determine a homossexualidade. Quando a igreja, por exemplo, atribui o fato ao demônio discrimina a criança e consequentemente aponta o dedo para os pais como se eles afrontassem a sociedade com tal vergonha. Vergonha de quê? Eu posso afiançar que um bom punhado de gente não sabe ou não tem observado que a criança pode transferir sua libido para o homem – seu pai – ou à mulher – sua mãe. É tênue a fita onde nossas crianças se equilibram. 
Todo o cuidado no tocante ao modo de tratar com a futura mamãe e a maneira de ela reagir com relação a todos os problemas durante a fecundação do óvulo, a gestação do feto, o nascimento e a criação do filho é pouco, mas ajuda sobremaneira. 
Um menino de perfil diferenciado chama a atenção e tão logo atinge a adolescência é assombrado pela crise existencial e só a presença de um terapeuta, e do novo marido de sua mãe, poderão ajudá-lo a se entender e sem muito sacrifício exercer no futuro as atividades que a vida impõe. Isso sem contar que ele viverá numa sociedade formada por pessoas maravilhosas, mas que tem na maioria pessoas preconceituosas, machistas, hipócritas e homofóbicas. 
- Nós, aqui em casa, temos alguns livros de Charles Darwin, outro tanto de Lacan, Jung, três de Piaget e a obra de Freud para nos capacitar a discorrer sobre o assunto. Em um dos livros de Freud, ele determina a postura de cada um de nós diante da vida. Pai ausente ou pouco afetivo, assim como, mães dominadoras e possessivas, costumam consolidar a figura do gay na sociedade. Veja bem, não sou eu quem o diz, mas Sigmund.
Dos onze aos dezoito anos é quando o jovem começa a se questionar. Enquanto o amigo quer levá-lo para jogar bola ele quer levar o amigo para a cama. No grupo de sua relação todos falam de meninas, mas ele, sem jeito, cala ou sofre fingindo ser o que não é. O conflito é grande e muitos se perguntam por que as garotas não os atraem, mas os meninos, sim? A tentativa de suicídio voa em torno das possibilidades da criança que não vê apoio nos pais, nos parentes e nos poucos amigos. Conversar com ele alguns até conversam, mas ouvi-lo, entendê-lo, aceitá-lo, poucos ou ninguém. Os pais deveriam fazer exame de consciência para descobrir o quanto colaboraram para esta situação. Deveriam lembrar-se das farpas trocadas, do silêncio na hora da fala e das ofensas proferidas na hora em que era para calar. Não é só a genética que determina quem é gay ou não é.
Eu, silvioafonso, e minhas cinco irmãs, fomos levados por nossos meus pais a diversos cinemas, a vários passeios e eu, especificamente, joguei futebol, enquanto meu pai babava do outro lado do alambrado e minhas irmãs exultavam com o jogador que eu não me tornei. Não pretendo com isso mudar o rumo dos rios, mas já que eu quero e posso, vou ajudar meu filho com a minha presença no outro lado do alambrado caso ele precise de um amigo para abraçá-lo na hora do gol ou confortá-lo na hora que a bola for para fora. Quero participar de sua vida com o melhor dos meus sorrisos, com as mãos prontas para aplaudi-lo até nos seus intentos mais bizarros, e os meus braços escancarados para o abraço verdadeiro e mais sincero. Tirarei dos armários todas as portas que possam ter, pois criá-lo dentro de um deles eu jamais me permitiria e se a arte final não sair de acordo com o projeto, eu o amarei do mesmo jeito como eu sei que me amariam caso eu não fosse o resultado positivo de um estudo tão audacioso.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

DE TEMPO EM TEMPO .

     

    Talvez não te tenhas esquecido do corpo bonito e bem feito que tinhas.  Das pernas bem torneadas e dos peitinhos durinhos que ponhavam a babar os rapazes por onde andavas e as moçoilas, coitadas, a se roerem de inveja à tamanha exuberância. Hoje, no entanto, tudo ou quase tudo mudou em tua vida, inclusive a cama que antes vivia quebrando hoje se presta como nova.  Teus desejos, tua ousadia, teu desempenho de moça fogosa de orgasmos mil, já não são assim tão parecidos.
Está claro que certas coisas não mudaram como não mudaram o teu caráter e a fidelidade para com teus amigos. Outras, entretanto, iam mudando a cada dia.  E o sexo então, nem se fala. A propósito; como tu serás daqui a três ou quatro décadas? Como estará tua libido com relação ao marido ou aos teus namorados? Quando se tem 20 anos a animação é tremenda, mas depois da idade adulta tudo mudo de figura.  Com 20 anos as garotas não ligam de fazer sexo durante o dia ou durante a noite, quem sabe de madrugada sobre o capô de um carro, no banheiro do colégio ou atrás do muro da igreja? Qualquer lugar é lugar e qualquer hora é hora  para novos amassos.  Essas crianças, como nós no passado, transam na escadaria do prédio onde moram e sem pudor nenhum contam às amigas detalhe do que fizeram. Com o tempo tudo vai mudando e o que se fazia bem feito durante um dia inteiro, hoje, em 10 ou 15 minutos se faz mais ou menos.  Na juventude fazíamos tudo bem feito e achávamos pouco, ao passo que hoje... 
Alguns maridos tentam pular o muro, mas as mulheres, coitadas, seguram a barra o quanto podem, e caso não fossem os safados a perseguirem com propostas mentirosas e promessas que jamais cumpririam e elas continuariam fieis e até infelizes, porém junto aos trastes dos seus companheiros.  
Eu, silvioafonso, jamais aconselharia alguém a trair seu par por falta de cumplicidade na cama ou na vida, mas se tomo conhecimento de alguém tentando pular a cerca eu corro para o lado das mulheres porque ninguém precisa ser uma para entender o duro que deve ser olhar para  aqueles belos rapazes desfilando por sua calçada enquanto ela se vê obrigada a deitar-se para dormir com quem mal toma banho, mal escova os dentes, só faz a barba quando vai sair e não a ama como antes era amada. 
- Curtamos, pois, nossa tenra idade antes que o texto seja sobre nós.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

UMA TARDE NO METRÔ.

 
     Já estava a ponto de explodir com a pessoa que ao celular gesticulava num espaço tão pequeno como alguém tentando se salvar em uma grande correnteza.  Com dedo firme tocou as costas da mocinha que afastou o celular para atendê-la.   - Pois não - respondeu com a brejeirice dos seus 18  anos. Márcia, quase teve um troço ao ser lambida por um par de olhos azuis turquesa. - Estou falando muito alto? - Quis saber a jovem. - Bem, é que, quer dizer...  Você não está falando muito alto, mas é que... Ah, deixa pra lá. É que eu achei que a sua bolsa estava aberta -  mentiu para a garota. - Obrigada - respondeu fechando o zíper enquanto observava a mulher que, agora calma, não tirou os olhos dela.
-A partir daquele momento Márcia não teve mais sossego. Aquela jovem alta, magra, pelos dourados pelo sol da praia, boca vermelha irradiando a jovialidade da sua idade, fora o verde azulado daqueles olhos nos quais ela demoradamente se banhou, tocavam alto um sino na sua cabeça. - Meu Deus, acho que estou enlouquecendo - sussurrou baixinho.  Antes eram os esbarrões dentro do trem que me incomodavam, agora é o medo de não tornar a vê-la.  Se eu não a encontrar em poucos dias, acho que terei um troço - resmungou mordendo o travesseiro. Cinco dias se passaram e  Márcia, desesperada, corria aos lugares onde acreditava que a pudesse ver, mas nada. Na sexta-feira seguinte, praticamente desiludida, Márcia deixou a gare onde há dias se encontraram e, pela última vez achou que pisava aquela plataforma. Márcia deixou passar uma senhora com uma criança no colo. Atrás subiu um homem de casaco longo até os pés acompanhado de uma adolescente de vestido acima dos joelhos segurando um celular. As pernas da jovem que cortou a sua frente tinham pelos dourados pelo sol, o que, de certa forma, acendeu um clarão em sua memória e Márcia, puxando o casaco do homem chegou junto aquela criatura e viu ali, diante dos seus olhos, a felicidade que achava que perdera.  As duas se olharam como se fossem amigas de há muito tempo. Largaram mão do que estavam segurando se abraçaram tão forte e não menos demoradamente que fez com que o homem, com um sorriso alegre nos lábios se afastasse delas e fosse embora.  - É meu pai - disse a pequena.  Ele sabe de mim e de você.  Há dias  não falo em outra coisa senão na utopia de poder voltar a vê-la - concluiu a mocinha sem sair de dentro dos braços dela.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

E AGORA, O QUE EU FAÇO?

   
   Juro que só não dei na cara dele porque sou covarde convicta e mesmo que não fosse, talvez não o fizesse, até porque o cara que se esfregava atrás, na minha bunda, era a coisa mais linda que os meus olhos já tinham visto, e quem acreditaria se uma pessoa de meia idade, operadora de caixa de supermercado, gritasse num ônibus apertado às 6 da tarde dizendo que estava sendo assediada por aquele deus? Ninguém, não é mesmo? Principalmente as mulheres que certamente tomariam o partido dele. É claro que diriam que eu queria "aparecer".  Agora, se eu fosse jovem, bonita e gostosa, e um cara se esfregasse atrás de mim eu, certamente, rodaria a baiana e ele, para não apanhar dos que gostariam de estar no seu lugar, giraria nos calcanhares e meteria o pé para fora do coletivo.  Só que a coisa não era bem assim, pois o sujeito que roçava na minha bunda era alto e sarado, queimado de praia e muito bem vestido.  O agravante era o danado ser bonito e além disso, era muito,  muito gostoso.  E então, como eu, uma balconista de meia-idade, mas conservada, diga-se de passagem, poderia acusá-lo de se aproveitar de mim? Meu Deus do céu... Eu juro que pensei sair de sua frente, mas se o fizesse outros tomariam o seu lugar e nada seria a mesma coisa.  Ninguém estaria com o perfume dele, o mesmo charme que envolvia a gente e a mesma segurança que dava a quem se sentisse presa a sua frente.  E se ter alguém nas costas era um pecado, que eu pecasse com quem não demonstrasse ser pecador, mesmo ele me espremendo contra o banco da frente e me deixando suada, como eu acho que fiquei. 

sábado, 6 de janeiro de 2018

O FUZILEIRO.

     
  Aqui nesse canto eu escrevi muito sobre vários assuntos e como a política não saía da mídia era para lá que eu apontava a minha artilharia dizendo o que eu achava e o que a maioria das pessoas bem informadas achavam dela.  Acontece que alguns, felizmente não eram tantos, discordavam da minha fala com palavras ásperas e isso, de certa forma, aborrecia a mim e aqueles que concordavam. Aos poucos fui deixando de lado a matéria que há muito não dá à mídia a oportunidade de falar em outra coisa, e o fiz constrangido, porque não há nada pior do que um dedo estranho vir de encontro aos seus lábios impondo silêncio. Essa, a meu ver, é a maneira mais idiota e imperiosa de se discutir um assunto quando desfazem do debatedor ao invés de mostrar solução. Esse é o nível de censura de um déspota, um fascista, um opressor.  Quisera eu conviver num lugar onde todos pudessem dar pitaco sobre tudo e qualquer coisa sem a obrigação de se ter cultura ou não ter. 
Eu nunca me achei mais sabido do que ninguém, muito pelo contrário. Mas gostaria de poder falar o que eu acho sobre qualquer coisa para, sem preconceito ou rancor, estimular qualquer um a dizer o que pensa, desde que se lembre dos riscos que corre sobre o que diz, e não sobre o que supostamente seja.

                                                     -----------XXXXX---------

   Ainda nessa semana eu volto a falar do homem e da mulher, porque depois da política não vejo assunto melhor para se tratar.  Nele eu me ponho como protagonista e as vezes como figurante.  Tem vez que eu sou o narrador da história, mas  também tem as que falo na terceira pessoa.
Vamos aguardar.  Enquanto isso, cartas para a redação.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

MILAGRE, FEITIÇO OU O QUÊ?

   

    Perdoe os meus seios, pois, pequenos, porém atrevidos, tocaram teu rosto quando a minha blusa se abriu. Faças isso que eu perdoo os teus lábios por beijá-los na hora da fuga.  É claro que nada existe em comum entre nós, inclusive eu comigo e tu contigo. Nem mesmo os meus 25 anos fazem jus ao meu corpo esguio e bem acabado, aos meus olhos penetrantes, as minhas pernas longas e torneadas,  a minha pele viçosa e esse par de peitos durinhos que, pelo que parece, vidraram teus olhos por eternos segundos, assim como o teu porte nobre e bonito, meu rapaz, que eu até me atreveria a compará-lo a um deus da Grécia de todos os tempos, e no entanto estás aí, parado como um anjo abatido pelos meus possíveis encantos. Talvez nada tu tenhas a ver com quem, em transe, divide as suas escusas. Se alguém pudesse tomar alguma providência quanto ao caso, certamente não serias tu e muito menos seria eu, mas, quem sabe, não seria esse magnetismo que prende os teus olhos no meu corpo e os meus nessa escultura?   Não, não precisas me perguntar se te amo porque o amor nada tem a ver com o que pedem o teu e o meu corpo se ambos são vítimas do mesmo feitiço... 
E então, vais me perdoar por, acidentalmente, esfregar algumas vezes os meus seios nos teus braços ou queres que eu grite a todo pulmão que teus lábios, mesmo que doces, carnudos e gostosos como água que se dá a quem morre de sede, são atrevidos como frutos do pecado? Penses bem e me digas. Não precisas responder antes de me beijar, mas me digas tão logo o teu corpo se desgrude um pouquinho do meu, o que espero não venha a acontecer antes do amanhecer, ou quando a respiração voltar ao meu peito dando-me conta de onde e com quem estou senão no paraíso com o filho pródigo de Atenas.  É lá, ou aqui, agora, que eu, molhada de suor e desejo, pretendo falar dos meus longos e pecaminosos sonhos, daqueles que mexem com a gente e com quem se deita na intenção de ter ao seu lado um deus do olímpio moderno que provoque nela o que o meu acabou de provocar.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

PARECE COISA DE MALUCO.

    Eu tinha medo de ser fraco como os covardes. De ser considerado mentiroso como os que negam a verdade em troca da vida ou de ser audacioso como os que morreram para provar que a morte é uma simples maneira de enxergar a vida. Tinha medo, não nego, e até mentia se a minha eterna felicidade não trouxesse prejuízo a ninguém, mesmo que perdurasse eternos segundos. Muitas vezes me contradisse. Muitos foram os momentos que confirmei o que havia negado momentos antes e afirmado aquilo que muitos juraram  que eu havia dito "não". 
Já descansei quando vendia energia e já levantei cedo para trabalhar em momentos que só deus sabe como pude erguer meu corpo. Já corri muito para chegar atrasado, como já retardei as passadas para não madrugar no encontro do dia seguinte. Já errei prestando atenção no que fazia e já venci Kasparov quando a mim só restavam 2 cavalos, um bispo e o rei. Já perdi num jogo de damas para quem se negava aprender as regras, como jazi por cinco dias com gripe curada com casca de limão. 
Acreditem, este ser que se curva para dizer de suas fraquezas e de suas mazelas tem muito a ver comigo, com você, e com aqueles que se deitam pensando em uma maneira de empurrar o mundo para novo rumo e acorda pensando num jeito de acertá-lo se desgovernar ladeira abaixo. 
-Você acredita ou discorda dessas verdades ou, quem sabe, concorde com quem acha que existe agente como a gente?

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O DONO DA PALAVRA.

   
   Eu não queria, mas como estamos em  festas,  vou contar como foi  o natal quando eu tinha 8 anos de idade.  A casa onde a gente morava era grande, tinha um fogão muito grande, uma cama imensa, como imensa era a mesa que mais parecia a de um grande banquete.  É claro que se eu voltar ao lugar onde morava, notarei que grande era tudo o que eu gostava de ver e pequeno talvez fosse só a estatura do menino que eu era. Pois bem.  No dia 25 de dezembro nossa casa estava cheia. Meus avós haviam chegado de Nova Friburgo onde moraram quase a vida inteira, depois vieram ficar com a gente. Minhas tias com seus maridos e filhos também estavam presentes.  No momento mais importante da festa, naquele em que se corta o peru, se abre as garrafas de vinho e no alto se bate uma taça na outra,  alguém batia com uma faca, um garfo ou uma colher na borda do copo pedindo silêncio e dando a palavra à minha mãe,   oradora oficial do evento.  Aquele era o momento que eu aguardava com ansiedade.  Mamãe se empertigava, elevava os olhos para cima e orava em voz alta agradecendo a Deus o momento e a oportunidade de ver todos reunidos em torno da mesa em seu santo nome.  Mamãe falava bonito, como falou até poucos meses atrás, mas naquela oportunidade mamãe, não me lembro por que motivo, não pode fazer sua pregação. Foi então que eu, com aquele tamanho, subi na cadeira, bati com as costas da faca na borda de um copo e pedi a palavras.  Foi o maior fiasco da minha vida.  As palavras que batiam asas e voavam da garganta da minha mães como borboletas, jamais conseguiram sair da minha.  Eu tentei, me esforcei, quis pedir ajuda, mas nada.  Nada do que eu achava que pudesse fazer consegui naquele momento. O que me salvou, talvez de ser linchado pelos olhares dos primos, foi alguém me pegar pela cintura e colocar de volta no meu lugar de onde jamais deveria ter saído.  Minha avó aplaudiu a intenção do seu neto e com ela os outros bateram palmas em memória ao nascimento do filho de Deus.  Eu fiquei enclausurado por muitos anos depois daquele, mas hoje, se alguém precisar de um orador experiente e que tenha a verve da coisa, por favor, escolha uma outra pessoa ou lá, com certeza, eu não me farei presente.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

SÃO USADAS E NÃO RECLAMAM...

    

    Acho que vocês se cansaram de me ouvir falar de cachorro, de amigos que partiram dessa para a melhor e das saudosas lembranças que trago da infância.  Agora, depois de pensar muito a respeito, decido por minha mudança. É claro que não me refiro deixar a serra onde eu moro, mas de falar sobre  coisas que a gente acredita normais, talvez eu consiga fazê-lo de maneira diferente, quiçá, mais amena.
      Vou tentar, porque esta é a minha proposta, falar das mulheres que pagam valores absurdos num corte de cabelo comparado ao que pagam os homens.  Tudo para a mulher tem carga maior, porém os salários, comparados aos nossos, é que deixam a desejar.  Muitas exultam com a facilidade de acesso as casas de festas, chamadas de boates e de bailes, que delas cobram pouco ou quase nada para que tenham acesso aos salões, ao passo que dos homens cobram o dobro ou mais.  É claro que a presença feminina é usada como isca para atrair homens e rapazes.  No dia em que essas moças acordarem para o fato, haverão de cobrar dos patrocinadores por sua entrada, ao invés de pagarem, mesmo que pouquinho para entrarem. A mulher leva o riso, a beleza, e tem com a sua presença o poder de mudar hábitos e costumes assim como transformar um faturamento simples em um verdadeiro conto das arábias. O artigo 5º da constituição dá à mulher e ao homem direitos iguais, por isso a classe feminina deveria reclamar de algumas benesses, como também dos preços que a elas desrespeitassem.  Aí vocês me perguntariam;  quem não gostaria de participar de uma grande festa sem precisar meter a mão na carteira? Aqueles que se consideram o sexo forte da espécie (como se existisse sexo fraco), precisam pagar e muito bem pago para estarem ao lado dessas deusas que, como as flores, exalam o perfume do cio e a beleza da vida.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

DESCULPEM, MAS PRECISEI REPETIR O TEXTO.


    Vagabundo era um vira-latas, desses que ficam soltos por aí correndo atrás dos carros sem lugar para morar. Sempre que eu passava o sujeito me encarava e se eu não parasse para falar com ele me seguia até me convencer. Então eu me sentava ao seu lado enquanto Vagabundo se concentrava me olhando e só o rabo chicoteava o chão. Era certo que o jeito  pedia colo, mas ninguém dava atenção a um vira-latas cheio de histórias para contar, mas eu ouvi suas lamúrias, e ele, é claro, acabou ouvindo as minhas. Graças ao amor que despertou em mim eu decidi trocar seu nome. A partir daquele momento Vagabundo se chamaria Válter.  Válter porque "Vagabundo" não é nome que se dá a cachorro que a gente gosta e eu gostava do sujeito. Tudo o que presta e também o que não prestava, confesso, ensinei para ele. Talvez fosse por isso que o cachorro aprendeu falar tão depressa, me garantiram. Quando o levava a sair comigo, nada do que eu fizesse era sem a sua participação. Se por ventura eu comesse alguma coisa a melhor parte era dele. Com certeza era por isso que seu pelo brilhasse ao passo que o meu.... Nem te conto. Válter adorava cachorro quente com molho de tomate, batata palha e maionese. Aliás eu nunca entendi esse cara que não comia cachorro quente sem molho, mas na hora de comer só a salsicha o interessava. Vai entender!
  Na segunda-feira de carnaval e não na quarta-feira de cinzas daquele ano Válter deu um latido estranho, tremeu como se estivesse com frio e morreu. Morreu como se não quisesse me fazer sofrer com sua morte. Nem demonstrar que sofria a pessoa demonstrava, pelo menos nunca o vi jururu pelos cantos e muito menos deixado de fazer festa quando sabia que eu ia levá-lo a sair comigo. Jamais deu pinta de que estivesse sofrendo. 
Como é que um cão tão forte e bonito como aquele podia morrer numa hora dessas, meu Deus? Válter, seu filho da puta, você acabou com o único carnaval que minha mãe me permitiu brincar, sabia? E como se isso não bastasse ainda leva consigo a alegria de quem me contava suas aventuras, seus sonhos e até dos amores, correspondidos ou não, ele me falou. Desculpa, mas até hoje eu não me conformo com a sua partida. Se você tivesse me dado um toque, uma pista, feito com que eu entendesse que alguma coisa não ia bem ou que a morte o estava embrulhando para viagem eu teria tomado alguma providência. Não sei exatamente qual, mas teria feito qualquer coisa, como rezar, jurar que deixaria de roubar dos meninos no jogo de botão, coisa que eu fazia com certa malícia ou nunca mais tomaria banho pelado com os outros moleques no Rio que separa Vigário Geral de Caxias, onde praticamente aprendi a nadar enquanto na margem eu  deixava minhas roupas com você tomando conta. Desde aqueles tempos eu não tenho olhos para nenhum bicho da tua espécie. Não quero saber de cachorro para trocar  nome, para ensinar a falar e principalmente, com quem me abraçar e chora nas horas triste da vida enquanto você, entendendo o meu sofrimento, deixava uma lágrima correr dos olhos dizendo que era minha e não sua, seu mentiroso. Não, nada de cachorro para comer o melhor do meu Hot Dog. Nada de bicho para me impedir de chorar ou chorar comigo. Não quero mais um companheiro que me deixe com cara de retardado falando com quem não entende, segundo os anormais que acham que bicho não fala.
Agora chega, senão eu choro. Esse texto era só um motivo pra dizer que cresci, amadureci e já sinto as pernas  fracas, os cabelos embranquecendo e uma leve curvatura na coluna, mesmo assim  não esqueço o Vagabundo do amigo.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

SÓ DEUS SABE COMO AS AMO.


    A  menina vive a expensas do pai que carinhosa e sabiamente a prende a cordéis que a farão mover para cima e para beijo, para um lado e para o outro. Depois da escola e dos cordéis do seu pai seu coração a levará até o seu novo titeriteiro, por quem ela se apaixonará, se casará e terá os seus filhos. A gravides a manterá presa aos barbantes até que ao seu coração seja dado o direito da liberdade.  Liberdade de pulsar pelos filhos e por quem, sob encanto, a sustentará. No dia em que seus "escudeiros" a deixarem e de sua vida partirem, essa moça sofrerá com a lembrança de seus carcereiros, mas dando a ela a certeza de que na prisão era quando se sentia livre para ser feliz. Hoje, sozinha, lembra com tristeza dos pais que se foram, do marido de quem é viúva, e dos filhos ora formados, mas trabalhando e morando em países distantes. Este momento de liberdade pura e total, não a deixa feliz como quando vivia, livre, atrás dos altos muros com grilhões nos pés e nas mãos.  
- Quando a menina se torna mocinha um certo detalhe a segura em casa ou suja sua roupa. Quando maior e com isso ela se acostuma, tem a virgindade com que se preocupar e no futuro não tão distante se entrega nos braços de um amor que a manterá só para ele, longe dos olhares cobiçosos, porém cheia de filhos, e se tudo sair como se espera, netos. Talvez por isso eu as respeite e as ame, tanto.

sábado, 9 de dezembro de 2017

SAUDADE DE VOCÊ...


     Escritor é alguém que utiliza da palavras escritas para comunicar ou passar ideias das mais variadas formas, como técnicas e estilos. São uns abençoados que têm o poder de saber produzir contos, textos jornalísticos, posts em blogues, peças de teatro, poesia, romances e ensaios entre outros, no intuito de passar informações aos seus leitores. Um escritor normalmente é hábil em transar a linguagem do momento no sentido de ampliar as ideias de um povo. Escritor, eu poderia dizer, é a pessoa que escreve uma obra de sua autoria, qualquer que seja ela. 
   Digo isso para falar de um cara que há dois anos nos privou de suas histórias indo morar noutro lugar. Era um privilégio poder ouvi-lo sorrindo contar seus casos no distante 1992 ou 93, quando chegamos a dividir uma mesinha no bar da Dias Ferreira com General Urquiza, onde a cerveja e a melhoria dos meus conhecimentos nos faziam próximos. Ali o João me falou dos seus filhos  Bento, Manuela, Francisca e Emília e em certos momentos deu-me a certeza do amor que tinha por Berenice, sua mulher. João era recém-chegado da Alemanha, dos Estados Unidos e do nordeste brasileiro.  Suas histórias, ricas em conhecimento e sabedoria, engrandeciam em muito nossos momentos, pois, que tinha ele formação em terras brasileiras, porém os graus foram colados ao som de hinos estrangeiros. Não tinha como evitar o crescimento da minha amizade por esse baiano, ao passo que ele sucumbia de curiosidade quanto a mim que quase nada dizia da minha vida. A bagagem de João era desse tamanho, enquanto eu, que aprendi a ler nas páginas dos livros de Monteiro Lobato, como ele, não passo de um mero devoto do gênio de quem falo agora. 
Quando a gente chega aos quarenta anos começa a deixar o futuro para o futuro e se dedicar a viver o presente que, evidentemente, está calcado num passado muito próximo, e nele, os amigos que nos deixaram por motivos diversos, inclusive de morte, como aconteceu com João. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

LEDO ENGANO.

      
   

      Seria bonito, gentil e educado o homem admitir ser a mulher mais forte, maior e especial em todos os sentidos comparado a ele. Não seria favor algum acreditar que a beleza assim como os prazeres da vida são resultados da presença da mulher.  Ela que é sinônimo de beleza, de bondade e de companheirismo, enquanto os homens não passam de individualistas e mal educados. Eu até diria que não somos apropriados para consumo, pois, quando somos aceitos por ela a tratamos como propriedade da nossa vaidade, da nossa intolerância, da nossa impaciência e da nossa burriquice. Assim que a mulher surgiu no paraíso, aonde até então só o homem habitava, passamos a rodeá-la, e como quem não quer nada nos aproximamos até que seus olhos atingissem o alvo dos nossos.  A partir daquele momento começamos a construir um inferno grandão, bonito e muito bem decorado com belos quadros nas paredes, cômodos enormes, partas largas e janelas panorâmicas. Banheiros espelhados, salas luxuosas, cozinha nos fundos e um quarto de causar inveja como se fosse um palácio de princesa.  Tudo para "agradá-la". A cama então nem se fala, melhor e mais confortável que as dos Marajás, Príncipes e Reis. Um homem dançaria a dança do acasalamento durante toda a sua vida buscando a mulher que aceitasse o que ele teria para oferecê-la e só no instante em que concordasse com as suas mesuras e promessas é que a vida começa de verdade. Para nós, homens, a vida seguirá o seu curso, mas para ela, mulher, a vida se transformará numa eterna prisão. Aquelas portas enormes que podiam ser vista pelo lado de fora não seriam as mesmas de saída. Estas são pequenas aberturas por aonde pequenos tacos de pão e canecas d'água chegam para o seu regalo em nome do amor. Assim são os palácios que os homens prometem para consegui-las, como também são os que as mulheres pensam serem verdade. Nós, os homens, não seremos jamais o senhor dos seus desejos, haja vista que você é nossa, só nossa. Você é nossa mãe, como também é nossa professora e a nossa mulher. Mas você não terá nada além de minutos prazerosos e segundos de felicidades, enquanto nós teremos tudo, inclusive teremos você em tempo integral. Este ser por quem dedicamos 70% de nossas vidas até conquistá-la é de direito e de fato quem nos tem sob seus pés, sob sua beleza e sob as ordens que não obedecemos por invertermos o valor das coisas. Na relação íntima de um casal ele se realiza, se completa pra depois dizer para os amigos que a partir daquele momento se tornou mais homem e muito mais viril ao passo que ela recolhe a roupa largada no piso do quarto, cuida dos filhos sem vontade de cuidar do próprio corpo que perde a beleza e o viço. Ele, entretanto, estremece o mundo com o seu grito de guerra, de macho feroz em busca de novas presas.
-Ledo engano.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

LINDO JEITO DE AMAR...

    A reação que o gozo provoca nas pessoas continua causando discussão, principalmente os das mulheres. Certos homens provam, ao ejacular, terem chegado às vias de fato ao passo que certas mulheres acabam em convulsão. Tem gente afirmando que um grande número de mulheres finge ter um orgasmo enquanto o homem, nem sempre. 
Eu digo nem sempre porque eu mesmo já fingi. 
Tem homens que gozam durante as preliminares enquanto outros levam um tempo muito maior para se satisfazerem dando a parceira mais tempo de se ajeitar dentro do processo. Dependendo da parceira o cara chega a ter vários orgasmos durante a transa e em alguns casos o gozo múltiplo é possível ou eu mesmo, se não fosse verdade, teria me internado para tratamento.
Depois de gozar a mulher se deixa em Standby, mas dependendo da virilidade do parceiro, logo estará disposta às novas investidas. Os homens que gozam uma vez ou aqueles que gozam a transa inteira têm o momento pós gozo bastante parecido. Em ambos os casos o macho relaxa e dependendo da parceira e do ambiente, pode até adormecer. Isso não é sinal de fraqueza; é do homem. Até o dia seguinte o humor dos participantes se mantém leve,  sorriso grande nos lábios enquanto a pele viça rejuvenescida. O melhor que eu vejo nesse gol a favor é a valorização que damos a vida e, por conseguinte a felicidade e a paz que as mulheres conquistam para tocarem a dureza da vida.
Eu diria que um bom orgasmo as faz desabrochar como flor, enquanto o homem...
Bem, neste caso eu estaria legislando em causa própria se dissesse que nos sentimos poderosos, atléticos, tipo semideus, o que nos tornaria, modéstia à parte, machos contumazes. Já as mulheres, não por arranharem, morderem o travesseiro, gritarem ou chorarem, como fizeram as que eu tive o privilégio de conhecer, provam, fazendo isso, que o gozo está chegando. Nem sempre isso é tão verdade como o prazer que a elas é permitido. Uma relação sem pressa, sem medo e sem pecado entre casais de boa saúde, proporciona à mulher o direito de encerrar o ato até fingindo que gozou, já que seu gozo faz melhor ao homem do que a ela propriamente dito. Quando o homem leva a mulher ao orgasmo dificilmente ela badalou sozinha aquele sino. Sempre tem a parceria carinhosa e inteligente de alguém que de mãos dadas a leva passear pelo jardim do paraíso enquanto o orgasmo abre suas asas sobre os dois.
Alguns casais, não muitos, se dão ao luxo de chegar às vias de fato ao mesmo tempo. Isso é sintonia fina. É bingo! É o tiro certeiro. É flecha cortando o vento rumo à mosca preta do tabuleiro.
De toda forma é necessário continuar os estudos sobre a matéria, mas sem esquecer-se da prática, e de preferência gritar às sete curvas do mundo os resultados conquistados, não calando como vem acontecendo. 
Gozar ou não gozar não é a questão, mas o prazer adquirido há de se convir que não tem preço.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

ADEUS, AMIGO. ADEUS.


        

      No final de novembro fiquei sabendo que o mais novo amigo que conseguira conquistar por estas bandas fora infectado pelo vírus da aids. Vírus adquirido na relação  com uma pessoa, por quem se apaixonara, e nos matou logo depois, com sua "ida". Foi um choque vê-lo definhando, fugindo dos médicos e dos tratamentos por não concordar que estivesse doente. Aos poucos perdia a fome, o sono e a vontade de continuar vivendo. Em contrapartida às feridas, coceiras, cabelos caindo e o corpo debilitado, sem viço e sem cor,  estava ali como prova daquela doença. Eu não acredito na cura através da oração, mas que ela dá força para enfrentar o mal, ah, isso ela dá, com certeza. Não a oração de uma pessoa ou de um grupo na intenção do um enfermo, mas a introspecção do próprio doente em nome de Deus, pois a fé alavanca a criação de anticorpos assim como fortalece a crença da cura,  a coragem da luta e a vontade de continuar vivo.
A fé tem esse poder. 
Agora internado contra a própria vontade ele mal enxerga o que se passa diante dos seus olhos, mal fala e quase mais nada ouve, principalmente o que dizem aqueles que acreditam na fé e no milagre.
Espero que a ciência, através dos médicos postados na sua cabeceira, rompa a fita de chegada antes que a morte atinja a reta final.
   - MAS...
Infelizmente às duas da madrugada de uma quinta-feira de dezembro, ele partiu... Talvez até ele mesmo torcesse por isso, pois a sua vaidade o aprisionava à doença de maneira que só não pediu socorro aos profissionais da medicina e aos amigos, porque a cidade onde nasceu, cresceu e morava era  pequena e todos se conheciam.  Todos os que se relacionaram sexualmente com ele estavam,  neste momento, em polvorosa. Talvez para evitar constrangimento meu amigo preferisse a morte, a mesma que o levou do nosso meio.  Mentiu, escondeu-se de tudo e de todos e só foi internado quando forças já não tinha para evitar o que fizemos.  
- Descanse em paz, meu rapaz, mesmo que eu o quisesse cansado, como estava, ao meu lado.
A saudade que você deixa é grande e somente minha.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

SUPERMAN...

   Eu gostaria muito de falar sobre meu pai, mas como amigo da gente não tem defeito evitarei qualquer adjetivo que o favoreça, mesmo ainda achando ter sido ele o melhor pai do mundo, como o é, em minhas recordações.  Quero e vou falar da frustração que tive quando eu era criança e ele fazia coisas que só os super-heróis eram capazes. Custei muito a aceitar esse deslize, pois diferente das histórias em quadrinho, nada ou ninguém conseguiria vencê-los e nem mesmo a morte poderia destruí-los. Por isso eu me sentia protegido e talvez até abusasse por conta disso. Era fantástico saber-me filho de um herói de verdade; respeitador e cumpridor de todas as obrigações. Pessoa que todos gostavam, talvez por ser ele o herói das minhas histórias.
Um dia, sempre tem um em nossas vidas, meu pai adoeceu e quase todos achavam que ele não escaparia ileso daquela aventura. Todos, menos eu que conhecia o seu segredo. Mesmo assim papai morreu. Fiquei frustrado, transtornado com o desfecho, já que existiam várias revistas e livros garantindo a imortalidade daqueles audazes. Então, como uma coisa dessa podia tirar a vida de quem, durante décadas, enfrentou madrugadas frias com o mesmo sorriso enquanto seguia para buscar o nosso sustento? Era difícil acreditar que uma pessoa que conseguiu vencer a pobreza, a falta de estudo e ainda por cima criou cinco filhos com um salário irrisório pudesse entregar os pontos à uma força que nem ele e muito menos eu conhecia.  Tive comigo por muito tempo as revistas que ele havia comprado na dureza de sua infância e que embalaram a dele e uma boa parte da minha juventude. As figuras e os textos me encantavam. Eu delirava com as proezas daqueles personagens assim como me encantava ter um tão junto de mim. O meu pai, definitivamente, era um Super Homem.
O tempo, porém, senhor de todas as decisões, calou o homem de aço e suas empolgantes histórias, só não emudeceu o filho e as doces lembranças que tenho, principalmente quando uma estrela em disparada riscava os céus sobre a minha cabeça como eu acho, ou achava que ele fazia.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

UNS CHORAM A VIDA, OUTROS A MORTE.

   
       Como diz Cazuza, os meus ídolos morreram todos de overdose. Meu pai, minha mãe, Elvis e Sinatra, João Ubaldo, Cauby, Wander lee, George Michael, Prince e Michael Jackson, como Marília Pera, e agora Cabrita; a Neide Aparecida do Saí de Baixo. Cada um num percurso diferente. Uns pelo vício de melhores momentos, outros pelo uso indevido do tempo enquanto a minoria, talvez por ter sido amada como foram meus pais, se intoxicasse com o sentimento a ela dedicado.  Sabemos que a perda não é justificada ou relevante, pois, se um gato sujar nos cantos mais absurdos da casa de sua dona ao invés de na caixa de areia, nem por isso a possibilidade de trocá-lo por outro será aventada, mesmo que o negócio, aos olhos dos mais exigentes, seja encantador e lucrativo. Agora pensa se o infeliz morre. Está na cara que seu dono também morrerá com ele, mesmo que um pedacinho, pelo menos, o bicho levará consigo. Esse tipo de perda não é e jamais se tornará objeto de discussão num país místico, como o nosso parece estar se tornando com o surgimento de tantas igrejas e o convertimento de céticos ao Islamismo, ao Cristianismo e ao Judaísmo. Não fosse tal crença e a gente nasceria e cresceria sem mesmo pensar que o fim dos sonhos e de todas as esperanças está na morte que, talvez, seja a única certeza que se tem.
      Neide Aparecida, sofri com o mal que a vida fez a você, mas continuo sorrindo com o que você causou em mim.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

VALEU, NEIDE APARECIDA.

      O humor troca o riso pelo silêncio da perda. A graça ficou presa nas palmas que não demos, da mesma maneira que o palhaço resmunga um amor que se foi na intenção de voltar no futuro e não o fez para tristeza daquele que pinta na cara dos outros a graça que seu próprio sorriso não vê. Mais uma vez o mundo perde a importância quando permite que a morte nos tire dos lábios o risco do riso. Mais uma vez essa terra deixa de girar por alguma coisa que ultimamente vem acontecendo dentro e fora de um tablado onde o pano há muito não vem caindo, talvez por estar perdendo o tempo do improviso. Eu não conheci o sorriso franco, meigo e doce que ora nos deixa como em represália aos momentos sofridos que a vida vinha lhe dando a partir de 2010 quando descobriu-se que havia nas suas entranhas, não um óvulo que nos desse uma nova mulher, mas um inimigo transvestido de morte atirando em tudo o que via dentro dela. Hoje aqui na serra o dia está frio como as mãos de quem esqueceu o seu par de luvas. Está desprotegido como a criança que chora na beira da sepultura o pai protetor que se foi sem garantir se voltava, e triste como se alguém muito querido tivesse partido nas primeiras horas do dia, mas que na verdade, nem um passo esse alguém teria dado além da nossa saudade. Eu não sei se essa coisa que vem nos levando para lugares desconhecidos e não sabidos nos reservará um espaço onde se possa adubar a vida ou distribuir para os que ficam a colheita da despedida que nem sempre nos é permitido fazer. Enquanto não chegar a minha vez e a vez das pessoas que eu amo eu continuarei assinando o mesmo protesto, mas não sem chorar o pranto dos íntimos no fechamento da campa.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

SENTINDO AS COISAS POR TRÁS.

    

    Ela não podia acreditar que se apaixonara por um homem a quem tinha visto uma única vez em sua vida e mesmo assim não conseguia explicar se foi com alegria rara ou profunda tristeza que o mandou embora ao sabê-lo disposto a convencê-la a transar de uma forma que ele jurava ser normal entre pessoas daquela idade uma vez que não via indecência ou preconceito subjugar a parceira por trás se ambos se amavam como diziam.  A relação em questão talvez fosse um de seus sonhos como o de outras mulheres que até negam quando perguntado, mas que na verdade acreditam ser uma delícia e até se submeteriam ao ato não fosse a certeza de que só as devassas, as prostitutas e as vagabundas se prestam a esse tipo de coisa. 
    Eu, certamente, faria toda a questão do mundo poder discutir o assunto se não fosse um cara casado, mas também não ficaria nada feliz se uma audaciosa  senhora  não me escolhesse para seu cavalheiro nessa contradança.  Muitos homens se transvestem de bonzinhos, de respeitadores e cumpridores das leis da igreja, mas no fundo são uns recalcados e isso também cabe para algumas mulheres,  casadas ou não,  que se dizem filhas honradas e mães devotadas. Esse tipo de gente pode até não falar das pessoas que não estão nem aí para o que possam dizer a seu respeito, principalmente quando descobrem seus desejos e a coragem que tiveram de praticar o ato em questão, até porque, são elas pessoas bem resolvidas ao passo que os honrados e de conduta ilibada, como querem que os vejamos, choram a amargura de uma vida vazia em seus  próprios  velórios. No momento em que tais pessoas se veem sozinhas, lastimam por não terem tido um amor diferente ou uma vida prazerosa em todos os sentidos.  A vergonha é própria de uma boa educação, todos sabemos e concordamos, mas um tiquinho de pimenta, convenhamos, não é o que tira o sabor do prato. 

sábado, 4 de novembro de 2017

ORGULHO DE TRABALHAR.

    A reforma da previdência e a trabalhista têm incomodado bastante os políticos, até porque nenhum desempregado questiona o valor do salário numa crise como essa, muito menos vai perguntar sobre tais reformas. Um chefe de família que trabalha para sustentar a casa sabe que ter a carteira assinada é mais importante que o tamanho do salário e quanto receberá quando se aposentar.  E quando estiver trabalhando e descobrir que o salário não é muito, o honrado trabalhador mesmo assim se manterá na empresa até que as coisas melhorem, e enquanto as melhorias não vêm, vai se ajeitando da maneira que poder. Normalmente a família entende e colabora com a causa o que o deixa  bastante feliz.  Ninguém, das minhas relações, tem questionado o problema que anda tirando o sossego dos políticos e dos coitados que pensam que alguém, senão ele próprio, luta por seus direitos. Pena que elas se enganam. Político, na grande maioria, só quer saber de si mesmo, enquanto o resto, ah, o resto é o resto e nada mais haverá além disso. 
Um dia meu pai, que trabalhava na construção civil, reclamou com seu patrão a respeito do salário.  O patrão pôs a mão no seu ombro e disse-lhe; - você trabalha comigo há mais de 40 anos e nunca o vi falar em aposentadoria. Que tal procurar junto ao INSS por esses direitos?  Meu pai, segundo me disse, coçou a cabeça e decidiu por ir à uma daquelas agências. Em 30 dias o velho se aposentou e durante o resto do tempo que teve de vida trabalhou na única coisa que fez a vida inteira ou seja, levantar paredes do chão ao infinito. Muitos anos depois a vida fechou-lhe as portas e ele se foi. Foi, mas levou em seus olhos o brilho que o trabalho neles refletia.
Pois é. No momento em que os políticos falam que vão fazer isso e aquilo, a gente trabalha para pagar os seus gordos salários, enquanto ouvimos o que já deveria ter sido feito há muito tempo e não discutido em praça pública para fingir que se preocupam com a patuleia.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

SÔ MINEIRO, UAI!

    
     Nesse mundo tem tanta gente boba que até eu, que nada tenho de esperto, acabo me entregando à gargalhada. Principalmente quando penso num par de amigos cujo hábito de  brindar o próprio relacionamento, que graças a Deus tem ido de vento em popa, é claro e notório. Entretanto esses caras que ao invés de falar da relevância dos seus 30 anos de casados preferem reverenciar os amigos que distantes, certamente também falam neles. Isso me causa frouxos de risos já que assim tem sido e assim, acredito,  será por muitos e muitos anos.  Em contrapartida nós,  amigos verdadeiros, não pensamos em outra coisa senão nessas pessoas quando estamos felizes, em festa.  Mas se por sorte a saúde de um dos nossos baqueia, aí os amigos não lembram dos que antes tintinavam seus copos pela saúde de ferro e  felicidade sublime.  Quando se ri, ri-se às gargalhadas, mas quando o pranto nos toma os olhos choramos até que o sono vença o resto de nossas forças. Amigos que se presa não divide tristeza, só alegria. A não ser que tal amizade tenha um quê de especial que a faça em cacos quando souber que o amigo adoeceu sem gritar seu nome. 
A qualquer dia de novembro meu carro nos levará pelas estradas da capital mineira e é claro que os amigos também aparecerão por lá ou a gente não combinaria tanto para ser tão parecido. Portanto, amigos, boa-viagem. Saiam cedo para não precisar correr tanto.  Saiam com tudo o que possam usar na viagem e com o que pensam não ser preciso.  Caso pintar uma necessidade tudo estará ao seu dispor e caso não pinte, traga de volta o que não for usado. 
Portanto, turma, vamos com calma, cuidado e respeito às leis de trânsito. Lá a gente se vê.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

SEMEADURA.

     

    Não vim abrir questão sobre política, religião e muito menos sobre a fé que nós, brasileiros, temos para sobreviver às mazelas eminentes. De uma forma ou de outra é preciso acreditar em alguma coisa e por que não crer nesse Deus que, segundo entendemos, nos deu essa terra maravilhosa de clima propício à semeadura do grão que transformamos no trigo que nos cala a fome. Infelizmente nos tem aparecido, desde que eu me "desconheço" como gente, algo ou alguém, digamos, de outro planeta, que nos passa a perna colhendo o que seria nosso sustento. Mas, graças a rapidez com que nos levam o resultado do nosso trabalho, sempre catamos o que deixam cair na sua rota de fuga, se não muito, mas o suficiente para, com sabedoria, ser dividido entre as famílias, nossos amigos e com quem tem fome. A vontade que eu tenho é de avançar na goela de quem tira do meu filho o passeio de final de semana, a pizza com os amiguinhos e os livros que não posso lhe dar. 
"Quando eu era pequeno sonhava poder ir ao cinema, mas papai mal fazia para o nosso sustento. Livros eu os lia na escola ou alguém me emprestava. Depois de velho fui a muitos teatros, todos os cinemas e a muitos eventos onde o livro era a razão do encontro. Isso sem gastar um centavo, uma vez que o governo, no intuito de justificar o sequestro do nosso dinheiro, garantia a quem estudou o que eu estudei o acesso a esses lugares".
Hoje eu queria (e quero) o melhor para o meu filho, mas me conformo em poder sustentá-lo uma vez que vivo em uma terra onde quem estudou é malvisto ou considerado incapaz quando aceita um emprego que nada tem a ver com o de sua formação. Isso é triste, é de levar às lágrimas. Talvez fosse menos vergonhoso ser gerente da boca de fumo, o chefe da quadrilha ou o mandachuva do pedaço. Como coragem eu não tenho e preparado para isso eu não fui, vou trabalhando e pedindo a Deus para não me deixar perder a fé no meu trabalho e na honra que tenho de ainda poder ser honesto.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PREÇO DA VIDA.

    


     A vida aqui na terra podia ter o preço de um primeiro sorriso, uma festa de criança ou de um carnaval. Mas não tem. É escorchante o preço da diária quando não sabemos o tempo que levaremos por aqui. O recibo nos é passado, ou melhor, barganhado por uma infância inteira de obediência aos pais e aos de mais idade. Estudo e trabalho abnegado, assim como sorrir para aqueles que lhe são simpáticos e para os que não gostam de você faz parte do pacote. Ir à igreja com a família nas manhãs de domingo, observar os mandamentos e não comer se não poder dividir o que tem na marmita, também faz parte. Mesmo assim ninguém garantirá que sua saúde e a de sua família será preservada com esse preço absurdo que você pagará sem mesmo ter certeza de que seus filhos seguirão o caminho do bem ou que viverão em paz e harmonia ao seu lado.
Só com chás, bolachas, refrescos e bolos você deverá festejar uma data, mesmo sabendo que tais extravagâncias não levarão ninguém a lugar nenhum. Já as cervejas e os destilados que dão barato e nos fazem tão bem, nem pensar. Brindar com seus amigos só com refresco, refrigerante e chás, mesmo que prejudiquem seu estômago. Música, talvez baixinha, para não provocar incêndio na esfregação dos pares dançantes. 
  Habitar essa terra, pelo que me presto a pensar, é careta demais e talvez não valha o preço que se paga já que as mulher precisam fugir ao assédio gostoso dos irresistíveis cafajestes, assim como nós aos cigarros que nos fazem elegantes, principalmente aqueles que nos levam às nuvens numa espiral de sonhos e fantasias. O mesmo acontece com as bebidas.  Ai eu pergunto; pra que abrir mão dessas coisas? Em troca de quê, de um engarrafamento sem precedentes, de uma política que trabalha para enriquecimento dos desonestos em detrimento de um povo analfabeto e faminto como estamos no momento e aqueles que fogem da guerra de seus países? Eu acho que vou trocar minhas duvida pela certeza das garotas corajosas e pelas bebidas  e os cigarros que encurtam a vida, mas que nos dão prazer e contentamento. Eu sei que principalmente o cigarro me causará enjoo, mas nada será tão ruim como ter que pagar para viver triste e em sofrimento. 
Se eu não fosse covarde, saía para dançar com uma gata, bem agarradinho, e no pé da sua oreia falava as besteiras que gosto e quando o tesão tomasse conta de mim correria ao alpendre para olhar a rua e as estrelas. E ainda mentiria a meu respeito e depois...  Ah, depois eu me arrependo, peço desculpas a quem achar que devo enquanto levo pra cama a mulher que encantarei com as flores roubadas ao jardim do vizinho. 
Na manhã seguinte chegaria atrasado no batente pra botar a culpa na condução e ainda blasfemaria contra o criador se um amigo chorasse ou por ventura esquecesse de quanto eu o amo.  Assim, com certeza, o preço da vida será muito mais justo.